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SEMENTES PARA CRESCER

Práticas parentais de reforço à auto-estima da criança


A importância da discussão em torno do tema auto-estima torna-se extremamente relevante, no sentido em que o grau de investimento, por parte duma criança, em explorar e enfrentar os desafios desenvolvimentais, depende da confiança em si e nas suas capacidades.


Num momento em que o Bullying e o consumo de substâncias psicoativas são temas recorrentes, verifica-se que a criança/adolescente com uma boa auto-estima encontra-se mais preparada para se defender e fazer-se respeitar, não permitindo que os outros abusem de si ou a influenciem negativamente. Para dotarmos as nossas crianças dessas ferramentas, o papel dos pais e de outros adultos de referência assume um papel preponderante.


Auto-estima
No desenvolvimento da criança, na aquisição de competências e nas conquistas daí resultantes, importa indagar sobre a construção e desenvolvimento da auto-estima, bem como o papel dos adultos nesse processo.


A imagem que temos de nós, ou seja, o modo como nos percepcionamos (auto-conceito), é construída desde uma fase muito precoce da nossa vida, provavelmente desde a gravidez, e encontra-se, de modo indelével, ligada à relação com os pais e/ou outras figuras de referência da nossa vida.

Visto a capacidade da criança em realizar um julgamento eficaz de si e das suas capacidades ser reduzida, depende das pessoas que lhe são significativas, que funcionam como "espelhos", aos olhos de quem se percepciona. Deste modo, os pais são, geralmente, os principais "espelhos" da criança, e têm um papel crucial no modo como se avalia e confia nas suas capacidades.

E é com base nessa imagem devolvida pelos pais que a criança constrói a sua auto-imagem e realiza um julgamento sobre si, que pode ser mais ou menos positivo. A esse julgamento, ou a essa avaliação que realizamos sobre o nosso auto-conceito, denominamos de auto-estima.


Papel Parental

Importa então reflectir sobre o que lhes estamos a transmitir. Porque se, predominantemente, a criança receber “ecos” positivos, a sua auto-estima tenderá a ser alta. No sentido inverso, se recebe com maior frequência feedback negativo, tenderá a possuir uma imagem negativa de si própria.


Cabe então aos adultos a tarefa de valorizar o que de bom a criança realiza, as suas qualidades e, mesmo nas actividades em que possuí maiores dificuldades, transmitir-lhes a esperança de serem bem sucedidas.


O elogio enquanto arma positiva

O elogio serve como uma poderosa ferramenta ao serviço dos pais, no que se refere à auto-estima dos seus filhos. Atribuído quando tenta realizar algo (elogiar o esforço, não apenas os sucessos), faz com que se sinta importante, valorizada, e capaz de empreender novas tentativas e conquistas. Além de permitir que acredite que é capaz de realizar algo que o adulto valoriza e respeita, este sentimento de confiança de ser bem sucedida é interiorizado e preservado no futuro.


Assim, mesmo quando o sucesso não é alcançado, o elogio pela tentativa, associado à esperança que o adulto lhe transmite que da próxima vez poderá ser bem sucedida, permite-lhe acreditar em si e nas suas capacidades, o que a ajuda a lidar com as frustrações de forma mais eficaz.



O poder das palavras

Para além do elogio, com grande frequência os pais são levados a sinalizar comportamentos ou acções que não consideram os mais adequados. Por vezes desprovidas de grande reflexão, as palavras utilizadas assumem um valor fundamental na mensagem que queremos transmitir, e no que queremos que a criança percepcione.


Torna-se então perigoso recorrer aos típicos rótulos e etiquetas que por vezes atribuímos às crianças. Como anteriormente referido, elas procuram nos adultos significativos espelhos que lhes ajudem a moldar a sua imagem. Essa imagem convém ser positiva e, quando não o for, deve transmitir a possibilidade de mudança para melhor.


Os rótulos não transmitem essa possibilidade. Ao invés, contribuem para que se percepcione e comporte de acordo com os “títulos” que os adultos lhes devolvem. Se, desde uma fase precoce da sua vida, começa a identificar-se com designações como “burra”, “preguiçosa”, “pastelona”, entre outras, com maior probabilidade crescerá a acreditar que o é.


A nível educativo, verifica-se a necessidade de ajudar a criança a compreender os comportamentos que não são os desejados pelos adultos, e aí torna-se importante recorrer a um uso eficaz das palavras. Para tal, as verbalizações dos adultos devem incidir sobre os comportamentos incorrectos da criança (Ex. “Esqueceste-te de arrumar o quarto”). Uma correcta sinalização do comportamento indesejado, permite à criança interiorizá-lo e, ao adulto, demonstrar o comportamento desejado, bem como transmitir que acreditamos na possibilidade de mudança positiva no futuro.

O oposto verifica-se quando, ao invés de demonstrar o comportamento desejado, atribuímos traços de personalidade (Ex.: “és sempre um desarrumado” ao invés de “tens de arrumar o quarto”). Deste modo, ao invés de se contribuir para uma efectiva melhoria comportamental por parte da criança, estamos a fornecer uma avaliação da sua identidade, de carácter permanente.


Ideias Positivas:

É necessário a criança acreditar na possibilidade de sucesso, e para tal precisa ser bem sucedido na realização de tarefas. Para tal, os pais devem procurar transmitir essa possibilidade de sucesso. Importa assim atribuir-lhe pequenas tarefas, que sejam adequadas à sua faixa etária, para ter verdadeiras hipóteses de ser bem sucedida. Nesse sentido, damos-lhe oportunidades de desenvolver-se, sem incorrer no erro de protecção em excesso, nem de a pressionar além das suas limitações naturais.

- Todavia, não cabe ao adulto procurar evitar exaustivamente que a criança se depare com sentimentos de frustração. Mais do que tal, a sua tarefa passa pelo ensinar que não é possível ser sempre bem sucedido. Quando existe uma boa identificação parental, a criança cresce tendo os pais como modelos a seguir. Porém, pode ser difícil para uma criança acreditar que poderá ser um dia como aquele ser perfeito que o pai e/ou a mãe aparenta ser. É muito salutar que os adultos também admitam quando cometem erros, e que o façam junto da criança. Reconhece assim que os adultos não são perfeitos, tal como ela não o é. Deste modo, os adultos podem ajudar a criança a aprender que errar é natural, todos o fazem, não apenas ela, e que existe sempre a possibilidade de, na próxima vez, procurar melhorar.


- Quando possível, permita que a criança tome as suas próprias decisões. Pode-se, por exemplo, pedir que opine sobre questões como onde ir passear, que actividade realizar, entre outras. Tal faz com que se sinta importante, valorizada e respeitada.

- Ouvir a criança. Mesmo nos momentos em que está apressado/a, é importante parar para ouvir e valorizar o que a criança nos transmite. Por vezes não é possível dar atenção imediata às suas questões. Nesses momentos, é preferível explicar que será melhor falar sobre o assunto mais tarde. Quando possível, volte a abordar novamente a questão junto dela.


– Dar valor às questões colocadas pela criança. Elas fazem perguntas de enorme significado moral, resta-nos estar atentos e, em conjunto, procurar aprofundá-las - não com a postura de sabedores da verdade, mas ouvindo o seu ponto de vista, expondo os nossos, explorando e descobrindo em conjunto. É neste ouvir e partilhar de argumentos com outras crianças e adultos que ela experiencia desequilíbrios cognitivos, que a levam a colocar em causa os seus conceitos e conduzem a uma nova reorganização dos mesmos. Este conflito (cognitivo) é fundamental para a reestruturação do raciocínio e para o desenvolvimento mental.

- Permitir a livre expressão dos seus sentimentos, mesmo os negativos. Por vezes, desvalorizam-se sentimentos muito fortes da criança, com expressões como "não se chora", ou "isso não é nada". Se ela sente, é porque tem razões para tal. É importante validar esses sentimentos e permitir-lhe que os partilhe com os adultos.

- É frequente esquecermo-nos de que já fomos crianças, e de que a sua forma de entender e percepcionar o mundo é muito diferente da nossa. Procure empatizar com ela, e perceber como esta se sente em determinado momento. Deste modo, ser-lhe-á mais fácil entender o seu ponto de vista e, assim, lidar com ela.

- Tal como os adultos, a criança também aprecia (e merece) que respeitem os seus espaços e limites. Expressões como "com licença" e "obrigado" podem contribuir para que se sinta confiante e respeitada.

- Partilhar com os filhos os seus gostos e os seus valores.


- Enquanto modelo para as crianças, transmita e seja entusiasta, positivo e alegre.


- Por vezes, o cansaço fruto dum dia de trabalho pode favorecer momentos em que se "descarrega" na criança de forma descontextualizada e injusta. É necessário avaliar o nosso estado e, quando necessário, recorrer ao parceiro para que lide com determinadas situações, resguardando o adulto mais cansado (e a criança).


- Esta é uma verdade que deve ser aplicada para todas as crianças, mas que torna-se mais relevante quando se trata de irmãos: o recorrer às comparações para repreender ou fazer a criança ver qual o comportamento desejável não é uma boa estratégia pedagógica. Não é positivo para nenhuma delas, e há uma delas que fica
prejudicada com a situação. Em comportamentos negativos, o ideal será comparar com outros momentos positivos (Ex. “Não devias ter batido no teu irmão. Lembras-te no outro dia quando vieste contar aos pais que o mano te estava a chatear?”).


- Uma grande parte do dia da criança é vivenciado longe dos pais, na escola, no jardim-de-infância ou creche. No fim do dia, é relevante que os pais demonstrem interesse e curiosidade pelas actividades dos seus filhos. Com frequência a criança ou não responde ou é vaga, mas o que conta é o interesse demonstrado pelos pais, o que
a permite percepcionar-se como importante para eles.
Desafio: experimentar perguntar à criança pelas coisas boas do seu dia, o que mais gostou, o que valorizou. De seguida, expressar igualmente o que mais gostou no seu próprio dia.

- Diga à sua criança o que a faz única e especial. Todos nós o somos, mas poucas vezes alguém nos diz.


- Por fim, uma última referência para o elogio: elogie-a com frequência, mas quando e onde o merecer. Os elogios são uma óptima ferramenta para a construção da auto-estima, mas só quando atribuídos pelo mérito, e de forma coerente. Mais do que o resultado, reforce o esforço da criança para ser bem sucedida.

Termina-se com uma proposta: uma vez por dia (no mínimo), elogiar uma acção ou qualidade positiva da criança, com naturalidade e no momento em que ela realiza o comportamento alvo do elogio.

Crianças passam tempo de mais nas creches

Deco alerta que um terço fica mais de nove horas no jardim- -de-infância. Especialistas alertam para risco deste distanciamento

Ansiedade, stress e insegurança são alguns dos problemas que podem surgir nas crianças quando passam muito tempo na creche. E os dados de um estudo da Deco mostram que quase um terço está mais de nove horas nas creches. Os especialistas alertam para os riscos deste horário prolongado, mas lembram que mais importante é que o pouco tempo que os pais passam com os filhos seja um tempo de qualidade.

"A média que conheço é de dez a 12 horas por dia de estada na creche. Sete horas é o ideal", afirmou ao DN o psicólogo Bruno Pereira Gomes. O especialista considera que as creches são importantes para a socialização, mas também têm aspectos negativos: "As crianças estão muito tempo distantes dos pais. É crucial que quando estão com os filhos aproveitem ao máximo. Caso contrário, esta distância poderá resultar em crianças mais inseguras, instáveis emocionalmente, stressadas, ansiosas e menos respeitadoras."

Para Bruno Pereira Gomes "é difícil uma criança entender porque o pai não a vem buscar à creche há mesma hora que os outros". "Podem pensar que 'não gostam de mim'", referiu.

Já a pediatra Ana Serrão Neto diz que o melhor é mesmo não passar "tempo nenhum" na creche. "Até aos dois anos e meio/três é melhor ficar com familiares ou empregados de confiança", explicou ao DN. A clínica defende que a partir dessa idade e caso a criança não tenha contacto com outras, então, "por razões de socialização", a creche pode ser benéfica. "Não é desejável que sejam tantas horas, mas é a realidade", acrescentou.

Mesmo deixando os mais pequenos tantas horas no jardim-de- -infância, os pais gostavam que estes estabelecimentos fechassem as portas mais tarde e até que abrissem aos sábados. "Sei que é difícil ser pai e essa hipótese iria facilitar a vida, mas a solução não é essa. Há que pensar antes em ter melhores horários ou trabalhar mais perto de casa e reduzir o tempo gasto nos transportes públicos, por exemplo. Não podemos ter crianças a crescer sem pais", realça Bruno Pereira Gomes.

O estudo da Deco mostra também que 73% das crianças passam uma hora por dia a ver televisão nos jardins-de-infância. "Se o fazem é errado e antipedagógico. Um filme uma vez por semana é uma ideia aceitável", destacou o psicólogo.

Para Ana Serrão Neto este não é um problema, já que a televisão pode funcionar como "um estímulo visual" para os mais novos.


Publicado no Diário de Notícias em 26/02/2010


http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1505105



Já como e durmo sozinho:



Percursos na Autonomia da Criança

No léxico educativo, pode-se definir autonomia como o processo que permite à criança diminuir proporcionalmente a dependência do adulto e, em contrapartida, obter uma maior segurança em si própria, nas suas potencialidades, e na tomada de decisões por si mesma, através duma análise de diferentes aspectos ligados a essa escolha. Este será, no fundo, o objectivo de todos os intervenientes no processo educativo, o de permitir que a criança construa o seu conhecimento, e se torne responsável nos seus comportamentos e acções.

A referência ao termo no contexto específico do desenvolvimento assume diferentes significados, tendo em conta a idade da mesma, bem como outros factores, como são exemplo o género, a nacionalidade, a cultura, entre outros.

À medida que a criança adquire capacidades que lhe permitem um controlo motor e verbal mais eficaz, verifica-se, da sua parte, uma crescente disponibilidade para explorar, descobrir e comunicar com o mundo em seu redor, momento em que o termo autonomia ganha maior significado.


Desenvolvimento da autonomia
Piaget (em Desenvolvimento moral da criança) aborda o tema da autonomia moral da criança, dividindo-a em três fases:

Ü Primeiros 3 anos de vida: Após o nascer e, até o primeiro ano, ano e meio de vida, a criança vive numa fase caracterizada, entre diversos factores, por um grande egocentrismo, em que desconhece o conceito de certo e errado, de cumprir regras, e em que as suas principais conquistas verificam-se a nível relacional, especialmente nas relações de afecto junto das figuras de referência. As normas de conduta são impostas pelas necessidades básicas da criança. À medida que cresce, ela pode e começa a seguir regras que, são-no mais pelo hábito do que por uma consciência do certo e do errado.

Ü 3 aos 9 anos: Progressivamente, verifica-se o desenvolvimento do respeito pelas regras. A diferença entre o certo e o errado centra-se no cumprir ou não as normas impostas pelos adultos. Neste período, a capacidade da criança em “colocar-se no lugar do outro” é reduzida, o que a leva ao entendimento de que todas as outras seguem as mesmas regras. Este respeito encontra-se principalmente ligado a dois sentimentos, o amor e o medo. Esta respeita as regras pela necessidade de agradar ao adulto amado, e porque tem medo das consequências que derivam do seu não cumprimento.

Embora as regras sejam seguidas pelas crianças, estas ou não são capazes ou sentem dificuldades em compreender quais os critérios que levaram à sua elaboração.

- A partir dos 10 anos: A fase da autonomia, em que se procura uma legitimação das regras. O respeito pelas regras é realizado através de acordos mútuos. Elas agora são negociadas, acordadas, não podendo ser meramente impostas.


O papel dos adultos
O papel dos adultos, na construção da autonomia dos seus filhos, é fundamental e influencia, de modo marcante, o modo como a criança ultrapassa os diferentes desafios com que se depara à medida que cresce. Aos pais, cabe a função de promover um nível equilibrado de autonomia. Este equilíbrio centra-se entre dois pólos opostos:

Autonomia em excesso – em que os pais deixam a criança explorar por sua iniciativa, sem limites concretos e orientadores para com a sua acção. Além das dificuldades da criança em se socializar, em compreender o que pode ou não realizar, pode gerar-lhe sentimentos de ansiedade, insegurança, não se sentindo protegida e acompanhada pelos adultos de referência;

Autonomia em défice – Os pais ou adultos de referência adoptam comportamentos de sobreprotecção, em que a criança não é estimulada a experimentar, a explorar. Tal poderá contribuir para que se torne descrente das suas capacidades, e possua medo em arriscar e procurar novas experiências.

A pais e educadores, pede-se “uma tripla função”:
« Promover a autonomia, dando à criança a possibilidade de manter uma relação activa de exploração dos objectos como forma de construção do conhecimento;
« Manter disponibilidade para auxiliá-la nos momentos em que a tarefa se torna superior às suas capacidades actuais;
« Demonstrar, de modo coerente e firme, quais as regras e limites que se espera que cumpra.

Para uma criança, pode-se então definir o conceito de liberdade como o poder de escolha dentro dos limites que os adultos significativos lhe fornecem para explorar. Tal torna-se fundamental, na medida que tanto pais como educadores possuem como objectivo a preocupação em educar as crianças para a autonomia, estimulando-as a construírem os seus conhecimentos, de modo activo e participativo, bem como dotá-las de ferramentas para uma socialização eficaz.

A criança deve ser, tanto quanto possível, produtora do seu conhecimento, aprendendo a pensar. Deste modo, a pais e educadores cabe possibilitar-lhe a possibilidade de auto-reflectir, de manifestar os seus desejos, impulsos, de decidir, de resolver de forma autónoma os seus problemas, e sentir que, quando necessita, tem o apoio, a orientação e os limites dos adultos.

Deste modo: a criança autónoma não é aquela que faz tudo segundo os seus desejos e impulsos, sem atribuir importância ao seu redor. Mas antes, o sujeito autónomo é aquele que consegue ser e agir, segundo a sua vontade, mas de modo enquadrado e respeitante com as regras, ideias e valores do seu grupo social.


Ideias para fomentar a autonomia:
- Criar situações que promovam a autonomia, que obriguem a criança a escolher, a ponderar diferentes perspectivas, a experimentar o sucesso e o insucesso nas mesmas. Elas pedem orientação, e não uma autoridade máxima. Ao permitir a possibilidade de escolha e/ de actuação a uma criança, transmite-se que “confiamos em ti”, que sabemos que poderá ser bem sucedida e que, mesmo errando, poderá aprender e ultrapassar as dificuldades;

- Escutar. Ela possui um tempo próprio para organizar o seu pensamento, e convém que o adulto não antecipe as suas ideias, mas sim que lhe dê tempo para que as finalize;

- Promover um espaço aberto ao diálogo, à troca de ideias e ao entendimento;

- Permitir que a criança erre sem julgamentos, sem crítica;

- Evitar realizar as acções pela criança. A autonomia deve ser conquistada pela criança, e promovida pelo adulto;

- Adaptar as possibilidades de tomada de decisão de acordo com a idade e maturidade da criança;

- Mais do que os resultados finais, importa incentivar os pequenos passos na direcção correcta, pois a criança necessita de se sentir capaz, e só o sente quando obtém sucesso nas suas investidas.


Desafios desenvolvimentais das crianças (e dos pais): Alimentação e o Sono
Ao longo do processo de autonomização duma criança, existem desafios que colocam à prova pais e crianças, e que se tornam marcadores na sua relação. Estes são momentos privilegiados de relação, bem como de negociação, assentes num equilíbrio entre a vontade/necessidade da criança em se afirmar como um ser independente, e dos pais em educar a criança conforme os seus padrões sociais e educacionais. Não são, de longe, os únicos, mas a alimentação e o sono são comummente duas das tarefas desenvolvimetais que maiores desafios colocam a pais e filhos.

Não se procura, com este artigo fórmulas educativas. No entanto, existem alguns conceitos e conhecimentos que podem contribuir para ultrapassar essas dificuldades com menor tensão.

E, o primeiro passo passa pela aceitação de que, grande número das dificuldades que surgem, se verificam dado que a criança se encontra perante a aquisição duma nova competência. O seu desenvolvimento não é linear, não se regendo apenas pela aquisição de novas competências. Com grande frequência, a aquisição dessas leva a uma regressão noutras já adquiridas, o que pode suscitar nos pais sentimentos de frustração e, muitas vezes, a sensação de desespero.

No entanto, a aceitação de que os retrocessos verificados são um possível sinal de desenvolvimento dos seus filhos, pode levar a que os adultos se sintam menos ansiosos e frustrados e, consequentemente, que transmitam esses sentimentos mais positivos aos filhos, de incentivo perante os esforços dos filhos nessa procura de independência e autonomia.


Alimentação
Os momentos da alimentação são dos que maior angústia causam a pais e educadores, em relação aos quais se exige, o mais precocemente possível, altos níveis de autonomia por parte da criança. O alimentar-se sozinha está directamente ligado à autonomia da criança, e deve ser estimulado nesse sentido, desde os primeiros momentos.

No início de vida da criança, constata-se que a manifestação de vontade e prazer na alimentação, por parte do bebé, é algo natural. No entanto, ao longo do seu desenvolvimento, verificam-se períodos em que ela desinveste, o que vem criar problemas na tarefa alimentar. Apesar desta ser uma área, como tantas outras, em que deve existir um acompanhamento e um diálogo permanente com o pediatra da criança, existem algumas ideias a ter em conta, que poderão contribuir para prevenir e/ou atenuar as dificuldades.

Muitas das dificuldades ligadas à alimentação prendem-se com o facto das duas partes (criança / adultos) possuírem objectivos opostos. O desenvolvimento adquirido pela criança ao longo do fim do primeiro ano de vida, leva-a a querer com maior intensidade explorar essas capacidades. Mais do que alimentar-se, ela quer agarrar os talheres, a comida, negociar com os pais… Enfim, quer explorar todas as suas novas “ferramentas”. Este é um exemplo de como o investimento, por parte da criança, para desenvolver uma nova competência, leva a um retrocesso noutra, neste caso, na alimentação.

Não se pode esperar que a criança passe automaticamente do registo de ser alimentada para o de alimentar-se sozinha sem que, para isso erre. Para que tal suceda, de forma autónoma, tem primeiro que errar, fazer asneiras, sujar, entornar e deixar cair comida e talheres. Esta é uma etapa importantíssima para o objectivo final e, já por si, uma enorme conquista. Como tal, esta fase de experimentação deve ser acompanhada, compreendida e incentivada pelos adultos.

É importante que os pais valorizem, e incentivem, as novas capacidades dos seus filhos, como o agarrar, o procurar imitar os adultos, o comer sozinha e explorar diferentes texturas e consistências da comida... A criança precisa destas experiências, de sentir prazer na alimentação, como anteriormente ocorria. Após esta fase, ela encontrar-se-á preparada para aprender a ter uma alimentação de acordo com os padrões sociais em que se insere.

Quando, por insistência, a tarefa alimentar se torna desprovida de interesse para a criança, podemos estar a contribuir para que uma dificuldade potencialmente passageira, se adense e se fixe num padrão comportamental.

Também por volta desta fase de desenvolvimento, verifica-se uma mudança das suas necessidades alimentares. Tal carece duma correcta percepção por parte do adulto. Durante o primeiro ano de vida dum bebé, ele triplica de peso, o que leva a que o seu apetite seja muito grande. Entre o 1 e os 2 anos, verifica-se que o aumento de peso é substancialmente menor, apenas cerca de 20 %, existindo mesmo períodos em que se mantém. Tal é perfeitamente natural, e é desse modo que deve ser encarado. Por vezes, pais habituados às necessidades alimentares dum bebé, poderão sentir alguma ansiedade pela sua diminuição, e transmitir esse sentimento ao filho. Esse comportamento poderá remeter a maiores níveis de insistência, os quais poderão ser sentidos, por parte da criança, como agressivos, diminuindo o seu desejo natural de se alimentar.




Ideias-chave a considerar:
- Incentivar e estimular as tentativas de autonomia da criança. Neste caso específico, o comer sozinha. Aos poucos, e progressivamente, devemos ir incentivando as crianças a utilizar os talheres, como os “grandes fazem”;

- Deve-se evitar usar ameaças, recompensas e castigos ligados à alimentação. Até podem funcionar no momento mas, a criança pode sentir que possui uma “arma” que pode utilizar no futuro, o que só serve para prolongar as dificuldades. Funciona melhor atribuir liberdade à criança, permitir a exploração dos alimentos e promover que ela decida, dentro dos limites impostos pelos pais, como poderá resolver a situação;

- Ensinar a respeitar e valorizar o horário das refeições. Esse é o momento de alimentar-se, além dum momento importante de relação. Devemos procurar que seja tranquilo, apelar à liberdade e ao prazer de comer;

- Com frequência os pais preocupam-se com o facto dos seus filhos não se alimentarem convenientemente. O facto dela estar a crescer de acordo com os padrões para a sua idade, e a comunicação com o pediatra, ajudam os adultos a sentirem-se seguros quanto às suas capacidades em alimentar os filhos. Quando não se alimentam nos momentos adequados, importa resistir à tentação de o fazer posteriormente com alimentos do seu agrado;

- A criança, para ter fome, necessita de movimentar-se e ser activa. Quando passa muito tempo passiva, como é o exemplo de estar sentada a ver televisão, é natural que sinta menos fome. Ao invés, quando brinca, corre, joga à bola, gasta mais energias, e mais apetite terá;

- Como em tudo na actividade parental, ser um bom modelo e exemplo para os filhos. As crianças crescem desejando imitar e identificar-se com as suas figuras de referência, daí a importância de sermos bons modelos para seguirem.
Sono
Abordar a temática do sono é sempre um tema delicado, em especial porque não é uma questão consensual sendo, por consequência, sujeita a diferentes perspectivas e opiniões.

Existem vários factores que levam pais a querer dormir com os filhos, como são exemplo as seguintes situações:

- Fruto das necessidades laborais, verifica-se um elevado número de horas em que os pais estão privados dos seus filhos, resultando no desejo de passarem o maior tempo possível junto a eles. O dormir juntos proporciona maiores períodos de proximidade, além de poder oferecer mais segurança aos pais que, com frequência, sentem dificuldades em se afastar dos filhos;

- Pais divorciados poderão possuir maiores sentimentos de culpabilidade por se separarem dos seus filhos durante o dia e, assim, procurar compensar essa ausência durante a noite. Também pode ocorrer que estes adultos se sintam mais sozinhos e, assim, procurem uma maior proximidade com os filhos;

- O facto de crianças mais novas acordarem um número considerável de vezes durante a noite, leva a que seja facilitador atender às suas necessidades quando no mesmo espaço.

De modo geral, a nossa sociedade considera importante que a criança, mais cedo ou mais tarde, possua o seu espaço próprio, preservando a sua autonomia e intimidade, bem como a dos seus pais. Para os adultos, torna-se muitas vezes difícil fazer a escolha sobre o momento ideal para que o seu filho durma sozinho no seu quarto. Esta é uma decisão que deve ser, antes de mais, tomada em conjunto pelos pais, e planeada antecipadamente. A pesar nessa decisão deve contar a informação de que, quanto mais tarde ocorrer a mudança para o seu próprio quarto, mais difícil se tornará.

Brazelton, tendo em conta vários estudos que incidiram sobre a maturidade do sistema nervoso do bebé, defende que por volta dos 4/5 meses é a altura ideal para que os pais de debrucem sobre esta decisão.

O conseguir dormir sozinho é um dos objectivos a alcançar por parte duma criança, e é um passo importante no seu caminho para a autonomia. A importância desta conquista verifica-se facilmente no modo como crianças com 4/5 anos se valorizam dizendo “eu durmo sozinho”, em contradição com os que se remetem ao silêncio, com receio de serem descobertos pelos companheiros.

Para que uma criança “aprenda” a dormir sozinha, ela necessita ser capaz de fazer uso dos seus mecanismos para se reconfortar, e enfrentar uma noite afastada das suas figuras protectoras. Tal leva a que a criança aprenda padrões para o seu autoconforto quando acorda. Tal funciona como facilitador do processo de autonomia emocional, além de contribuir para o desenvolvimento do sentimento de segurança sem a presença física dos progenitores. Quanto mais a criança incluir os pais nos seus padrões de sono, mais dependente se tornará dos mesmos. Daí que seja natural que, ao contrário do esperado, quanto mais crescido for o filho, mais difícil tenderá a ser a mudança.

Esta importante conquista na autonomização, não é um processo linear e, com grande frequência, os pais deparam-se com retrocessos, o que os pode levar a questionar as crianças, bem como as suas próprias capacidades educativas. Como referido anteriormente, a aquisição de novas competências pode causar retrocessos noutras já adquiridas e, nesse aspecto, o sono é facilmente influenciável. Deste modo, mais uma vez, é com calma e consciência de que é “um passo em frente” que os pais devem encarar estas novas dificuldades. Apontam-se dois exemplos de avanços que podem causar retrocessos no sono:

Ao adquirir o desenvolvimento motor que lhe permite levantar-se, agarrar-se ao berço, é natural que a criança teste essas capacidades na hora de deitar. Quando esse desenvolvimento se cimentar, os seus padrões de sono tendem a normalizar-se. No sentido oposto, quando os adultos encaram com demasiada ansiedade esses retrocessos, ao invés de valorizarem o avanço alcançado, poderão inconscientemente contribuir para que as crianças se fixem neles.

Outro exemplo recorrente verifica-se por volta dos três anos. Neste período, verifica-se um avolumar dos medos manifestados pela criança, como são exemplo o medo do escuro, dos fantasmas e ladrões, que surgem com maior intensidade nesta idade, em especial no momento de deitar. Mais do que um retrocesso na capacidade da criança dormir sozinha, estes medos são sinais de uma maior maturidade em diversas áreas, como a da imaginação, da criatividade, do jogo simbólico, e duma maior consciência dos seus pensamentos agressivos, que se tornam mais ricos neste período.

Este desenvolvimento, importantíssimo no modo como a criança se socializa e incorpora os diferentes papéis sociais, resulta frequentemente em retrocessos na capacidade da criança sentir-se segura, no seu quarto, longe dos pais.

Mais uma vez, o primeiro passo para ultrapassar estes retrocessos passa pela sua aceitação enquanto integrantes e consequência dum processo evolutivo positivo da criança. Estas dificuldades são, no fundo, bons sinais e, quando os pais assim os aceitam, contribuem para uma diminuição da sua ansiedade e frustração, evitando que estas sejam passadas aos filhos.

Para finalizar, deixam-se algumas ideias úteis para ajudar a criança a dormir sozinha, e a vencer o medo do escuro:

- Procure transformar o momento de deitar numa ocasião de prazer e de relaxamento. Fale com a criança, conte-lhe histórias ao adormecer;

- A existência de rituais ajudam a criança a organizar-se e a orientar-se. Uma hora certa para deitar, e a criação dum ritual de preparação para este momento, como o beber leite, vestir o pijama ou lavar os dentes podem ser facilitadores. Importa que a criança interiorize que um determinado acto precede o momento de deitar, sem retorno ou negociação possível;

- Reconheça e legitime o medo da criança. Tente compreendê-lo e, em conjunto, explorar a causa dos seus medos, bem como formas de os ultrapassar;

- Mostre cumplicidade com os seus filhos, falando-lhes dos seus medos quando era criança, e até mesmo de alguns que sente em adulto (tendo em conta a adequação dos conteúdos à idade da criança);

- Deixar a porta aberta do quarto pode ser um bom auxílio;

- A existência duma luz de presença é um "amigo" maravilhoso. Se a idade da criança o permitir, ter junto a si uma lanterna que pode acender quando sentir medo. Este medo pode ajudar a criança a sentir que possui uma "arma" para se proteger;

- A possibilidade da criança ter na sua cama um boneco ou brinquedo que goste muito pode contribuir para que se sinta mais segura e confiante;

- O medo do escuro não se enfrenta no mundo do concreto, por isso torna-se desnecessário dizer-lhe que papões não existem. Este é um jogo que se joga ao nível da imaginação, e por isso os pais terão que participar a esse nível. Ajude a criança a procurar os monstros que julga escondidos no armário, assuste os fantasmas com uma lanterna, conte-lhe histórias em que os heróis venceram os monstros, use a imaginação e a fantasia...

“Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros
fizeram de mim”
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)





Bibliografia / Leituras recomendadas
Brazelton, T. Berry (1995), O Grande Livro da Criança, Editorial Presença, Lisboa.
Brazelton, T. Berry (2004), A criança e o sono, Editorial Presença, Lisboa.
Piaget, Jean, O Juízo moral na criança (1994), Editora Summus, São Paulo.
Sprinthall & Sprinthall, Psicologia Educacional (2000), Mc Graw-Hill, Lisboa.

Falemos de coisas sérias: O brinquedo

A sua importância no desenvolvimento da criança


Brincar

Ao longo do desenvolvimento da criança, o brincar funciona como uma "ferramenta" que lhe permite explorar, conhecer e agir sobre a realidade que a rodeia. Ao brincar, a criança experimenta e desenvolve capacidades motoras, artísticas, criativas, cognitivas, sociais, entre outras. Este brincar, tão comummente desvalorizado, permite-lhe controlar a realidade em que se insere, possibilitando desse modo a sua integração, compreensão e experiência de diferentes mecanismos de interacção com o meio.


Quando falamos do brincar da criança, referimo-nos a algo realmente sério, pois tal acção permite-lhe desenvolver um rol de competências que, de outro modo seria, se não impossível, muito menos eficaz.

Entre outras competências, o "brincar" permite à criança desenvolver: capacidades motoras; a linguagem; ser criativa e explorar o seu sentido artístico; comparar, realizar associações, aprender conceitos de tamanho, realizar cálculos; desenvolver competências sociais - a brincar, ela aprende a socializar com os pares, a criar amigos, a resolver conflitos, a gerir sentimentos como a agressividade e a frustração, a interiorizar limites (quer sejam próprios, como impostos).



Brinquedo


Ao termos consciência do quão fundamental é o brincar no desenvolvimento infantil, importa falar sobre o brinquedo e a sua importância. Cabe a este, antes de mais, ser divertido e cativar a criança para que assim possa contribuir, de forma lúdica, para o seu desenvolvimento e aprendizagem.


O brinquedo pode ser definido como um "tradutor" do real para a "realidade da criança", que permite suavizar o impacto percepcionado do tamanho e força do mundo dos adultos, possibilitando-lhe assim manipular e evitar o sentimento de impotência. Isto é, por exemplo: uma criança, ao ver o pai a conduzir o carro, desejará ser um dia grande e conduzir, tal como ele. Mas, face à impossibilidade de conduzir o carro do pai, o poder manipular um de brincar fá-lo experimentar e vivenciar a sensação de poder que o progenitor sente.


Desenvolvimento da criança


O brincar não é sempre igual. A criança brinca e interage com o que a rodeia de modo específico, tendo em conta o estágio de desenvolvimento em que se insere, o que influencia os seus interesses e motivações naturais. E, tal como o brincar vai mudando, também as necessidades e os gostos em relação aos brinquedos alteram.


Nesse sentido, o estádio de desenvolvimento em que a criança se encontra, a sua maturidade, o seu desenvolvimento psicomotor, os interesses e motivações naturais são factores a ter em conta ao escolher um brinquedo. Até porque, a adequação do brinquedo à criança, influencia significativamente o grau de interesse que ela irá sentir, bem como o quanto esse brinquedo a estimulará.


De seguida, são abordados diferentes períodos de desenvolvimento e referidas algumas ideias sobre brinquedos que, nessas faixas etárias, poderão funcionar como aliados potenciadores de desenvolvimento:

Do nascimento ao primeiro aniversário

Nesta fase de desenvolvimento, o ideal são os brinquedos que conseguem prender a atenção das crianças sem, no entanto, as "agredir". Aqui, o brincar acenta numa relação muito pessoal entre ela e o brinquedo. É conveniente proporcionar uma estimulação multi-sensorial à criança, daí que seja adequado escolher brinquedos que estimulem diferentes sentidos, como o tacto, a audição e a visão. Para a criança, importa a variedade de cores, a textura e o movimento.


Aconselha-se: Bonecos de pelúcia agradáveis ao toque, com diferentes texturas e tamanhos (sem botões ou outros materiais passíveis de serem retirados e inseridos na boca); os móbiles que se colocam em cima da cama; os tapetes de actividades; os brinquedos para o banho; livros apropriados para bebé, quer sejam de pano, de plástico (grandes) ou para o banho; chocalhos com sons suaves e diferentes; blocos de plástico; objectos próprios que possam ser mordidos.



1 aos 2/3 anos de vida


Esta fase é caracterizada por um período de grande desenvolvimento motor e da linguagem na criança. Ela torna-se progressivamente mais activa e procura explorar cada vez mais o meio à sua volta, revelando uma enorme curiosidade e desejo de descobrir e explorar o mundo à sua volta. Durante este período, verifica-se um crescendo no interesse pela interacção com "o outro".



Todo este processo de exploração, a criança realiza-o através da utilização dos seus sentidos sem, no entanto, possuir uma grande noção de perigo, o que tão frequentemente causa sobressaltos aos adultos.


Por esta altura, verifica-se a predominância dos jogos de exercício e de manipulação, com uma maior destreza motora e um natural e progressivo incremento da sua autonomia. Este brincar favorece o sentimento de poder e eficácia por parte da criança.


Aconselha-se: bolas de futebol; jogos de encaixar e empilhar; blocos; livros, dando enfoque aos que possuem desenhos coloridos e cativantes; jogos e brinquedos que permitam empurrar e puxar; brinquedos que estimulem a linguagem como imitações de telefones e microfones; bonecos maiores; quebra-cabeças simples e adequados à idade; carrinhos, comboios, barcos e aviões de imitação.


Do terceiro ano de vida até aos 5/6 anos


Nesta fase de desenvolvimento, a criança procura cada vez mais explorar o meio à sua volta, testando a sua força física, e imitando os que a rodeiam, especialmente os pais e irmãos mais velhos. A possibilidade do jogo simbólico, recentemente adquirida, permite à criança a compreensão e a aprendizagem de papéis sociais que fazem parte da sua cultura, daí a imitação dos que a rodeiam (os conhecidos jogos dos "pais e mães", aos médicos são um exemplo de tal).


As suas brincadeiras são caracterizadas pelo desenvolvimento da fantasia, aliado ao aumento da linguagem (a criança adquire a capacidade de representar objectos, mesmo quando não presentes), o que assume um papel fundamental nas suas brincadeiras, nomeadamente através do faz-de-conta. Aqui, as histórias, os fantoches, os desenhos e o brincar com objectos atribuindo-lhes outros significados fazem parte do dia-a-dia da criança. A criança necessita de jogos que estimulem e potenciem a sua criatividade, bem como a sua actividade motora coordenada.


Aconselha-se:
Livros; diferentes materiais de pintura e desenho; quadro e giz; plasticina e massas de modelar; fantoches; máscaras e fantasias; casinhas e brinquedos de imitação do "mundo dos adultos", como são exemplo, as ferramentas, os utensílios de cozinha, entre outros; bonecos; bolas e diferentes utensílios para práticas desportivas (sempre apropriados à idade e desenvolvimento da criança), lagos, puzzles simples.




6/7 anos aos 10 anos


Por esta altura, os jogos e brincadeiras com regras assumem uma maior importância no quotidiano da criança. As brincadeiras centram-se por vezes mais nas regras das mesmas do que na actividade em si. Deste modo, o brincar e o jogo de regras possui um papel fundamental no modo como a criança aprende a seguir regras e desenvolve estratégias de tomada de decisão.

O jogo permite à criança socializar com o outro de forma mais organizada, desenvolvendo a socialização assente em conjuntos de regras, no seu respeito e na sua negociação. Tal permite socializar de forma mais organizada, descobrindo deste modo que não são os únicos sujeitos da acção e que, para atingirem os seus objectivos, devem considerar também o facto de que os outros também possuem objectivos próprios que querem satisfazer.


Neste sentido, é exigido à criança um controlo do comportamento impulsivo diferente do verificado em períodos anteriores de desenvolvimento. Estas características das brincadeiras e dos jogos levam ao desenvolvimento dum comportamento caracterizado pelo incremento do controle sobre a impulsividade, a uma maior capacidade de pensar e reflectir sobre as suas acções e a um aumento dos interesses intelectuais, o que encaixa propositadamente com a entrada para o Primeiro Ciclo de Escolaridade.


Aconselha-se:
Livros adequados à idade; diversos materiais de escrita e pintura; blocos com números e letras; jogos de tabuleiro, de agilidade mental, de atenção e memória, de habilidade motora; brinquedos de construção e montar (como por exemplo, os tradicionais legos); jogos de experiências científicas, como microscópios, lentes de aumento e outros instrumentos que estimulem uma iniciação científica; desporto e actividades ao ar livre; bicicleta.



Notas Finais


Importa realçar que as idades apresentadas são meros indicadores de desenvolvimento, de modo a organizar a informação. No entanto, estas idades não poderão deixar de ser consideradas meramente enquanto auxiliadoras. Nenhuma criança possui um desenvolvimento homogéneo. De modo natural, desenvolvem mais rapidamente umas competências do que outras. O mesmo se passa quando comparamos diferentes crianças, que obviamente possuem um desenvolvimento distinto umas das outras.


Cada criança tem o seu padrão de maturação e exige, antes de mais, que se esteja atento, respeite e acompanhe o seu desenvolvimento. Esta é uma verdade para o brincar, para os brinquedos escolhidos, e para tudo o que se relacione com o desenvolvimento infantil.
Antes de mais, ao escolher um brinquedo e/ou brincadeira, importa seguir os desejos e vontades da criança, pois é desse modo, lúdico e divertido, que poderão contribuir para o desenvolvimento das mais diversas competências da criança.

MAIS SORRISOS, MENOS BIRRAS:

Uma abordagem optimista no desenvolvimento da criança

Ainda recente no campo da Psicologia, a Psicologia Positiva caracteriza-se pelo enfoque nas qualidades do ser humano, bem como no que faz a vida merecer ser vivida e o que podemos melhorar. Deste modo, esta corrente procura quebrar a tonalidade negativa atribuída pela Psicologia, muito centrada na patologia e nos problemas, e focar-se, de forma teórica e empírica, na construção de condições que conduzam a uma melhor qualidade de vida, à procura da felicidade por parte do sujeito.

A Psicologia Positiva não possui o intuito de desvalorizar ou descredibilizar o anteriormente realizado a nível da Psicologia, nem a importância do atingido, que deve ser sempre preservado e valorizado. Pretende sim, de certo modo, salientar que, durante o desenvolvimento da Psicologia enquanto ciência, não foi priorizado o estudo da felicidade do ser humano. O que é que nos faz ser mais felizes? Como podemos incrementar os nossos níveis de felicidade? Visto estar provado que a ausência de doença, só por si, não resulta automaticamente em felicidade ou bem-estar (Marujo, H., Neto, L., Caetano, A., & Rivero, C., 2007), a questão da felicidade e do bem-estar humano têm de ser obrigatoriamente aspectos alvo de estudo da Psicologia.

Ao efectuar uma reflexão sobre a importância duma abordagem optimista no desenvolvimento da criança, importa pensar sobre o que é o optimismo. Segundo os autores anteriormente referidos, o "optimismo é uma característica individual que, embora possa ter algumas influências genéticas, pode ser aprendida e implica sempre a capacidade de ter expectativas positivas acerca do futuro e acreditar que o que está para vir é bom. Isto para além da capacidade de ver o melhor da vida. Mesmo nas situações mais problemáticas, desafiadoras e, até, dramáticas, o optimismo traduz-se na capacidade de retirar alguma aprendizagem e algum ponto positivo". Das vivências diárias e daquelas mais significativas ou marcantes, concluí-se que o que diferencia os optimistas dos pessimistas não passa pelo número de boas ou más experiências ao longo da vida, mas sim pelo modo como as percepcionam e interpretam.
Esta nova forma de interpretar a realidade (optimista) faz ainda mais sentido em contexto educativo, quer seja em casa, numa escola, num Jardim de Infância, ou outros locais em que se privilegie o papel de educador, tanto mais que se comprova que o optimismo tem repercussões directas nos níveis de felicidade, da saúde física e mental ao longo da vida, e até mesmo nos níveis de produtividade.

Atendendo ao anteriormente referido pede-se, em primeiro lugar, que quem se relaciona directamente com crianças compreenda e assuma a importância que terá no seu futuro, pois são os modelos de referência, a quem as crianças recorrerão na procura de modos de compreender e agir sobre a realidade em que se inserem. Temos de nos consciencializar que somos os principais agentes de socialização das crianças e que, consequentemente, as nossas atitudes para com elas são determinantes para o seu desenvolvimento harmonioso. É nos pequenos momentos, nos pormenores, que a criança assimila os nossos exemplos, os nossos ensinamentos. A expressão: "Faz o que digo, não faças o que faço", não tem valor num contexto educativo, pois será pelas nossas acções que a criança se guiará.

A importância dos modelos de referência "caseiros" é demonstrada através de estudos (Marujo, H.; Neto, L. & Perloiro, M., 2000) que comprovam que os diferentes membros de uma família tendem a ter níveis semelhantes de pessimismo ou de optimismo. Tal revela-nos que aprendemos a ser optimistas com aqueles que nos são próximos, e coloca às famílias o desafio (e responsabilidade) no sentido de procurarem fomentar o desenvolvimento de crianças positivas.

A consciência do peso das nossas acções no desenvolvimento das nossas crianças, exige uma reflexão sobre a forma como vivemos a nossa felicidade, como encaramos as adversidades e as transmitimos aos nossos filhos. Esta introspecção pode, e deve, ser realizada não apenas desde o nascimento da criança, mas sim desde o momento da gestação.

É verdade que ninguém vem ao mundo optimista ou pessimista, no entanto, é também aceite que o estado de espírito de uma mãe durante a gravidez tem repercursões no desenvolvimento da criança. Durante a gestação, as crianças apreendem as sensações através da sua mãe, tanto as positivas, como as negativas. É importante que as mães encarem este período de uma forma feliz e optimista, de forma a oferecerem o máximo de experiências positivas ao filho.

É sempre benéfico que, durante o período de gestação, a mãe converse frequentemente com o seu filho, oiça música que a faça descontrair, sinta o seu bebé, procure ter o máximo de experiências felizes e relaxantes, pratique exercícios de relaxamento e de visualização (imagine cenários e situações agradáveis, pratique Yoga, entre outros).


Como educar para o optimismo?

Não existe uma fórmula que nos transforme em optimistas. Todos os momentos da nossa vida podem ser encarados e avaliados de diferentes perspectivas, que podem ser mais ou menos optimistas. O povo português é caracterizado pela ideia da desgraça, do futuro sombrio, em que só nesse estado encontramos conforto (sentimento de excelência do Fado). Não querendo incorrer no erro de catalogar o povo português, não se torna difícil encontrar provas do negativismo endémico à nossa sociedade, bastando para tal ver o telejornal, e realizar uma comparação entre o número de boas e as más notícias. De certo modo, por vezes, surge o sentimento que a tragédia une as pessoas, e que é errado ser feliz e demonstrar esse estado de espírito. E essa é uma mensagem que frequentemente é transmitida às nossas crianças, a de que em criança é natural ser feliz, rir, mas que ao crescer, tudo muda. E é precisamente por aí que podemos iniciar uma mudança, começando por cada um de nós, agentes educativos.

Esta "revolução" tem de ocorrer, e é em casa e nos estabelecimentos educativos que ela deve começar. É reconhecido que ao salientarmos um traço, existe uma maior probabilidade de o repetir. Ao observarmos adultos em interacção com crianças, verifica-se a frequência com que são destacados aspectos negativos, repreensões, em comparação com os elogios aos bons comportamentos. Nós, adultos, não o realizamos por malícia, ou por desejar o mal para os nossos filhos. O que se verifica com frequência é que repetimos nas nossas crianças os modelos educativos que nos foram transmitidos, que vastas vezes não primavam pelo uso do elogio. No entanto, esses padrões educativos podem ser alterados, especialmente ao termos consciência das nossas acções e do impacto que possuem no desenvolvimento da criança. Cabe-nos a nós, adultos, realizarmos uma auto-reflexão das nossas interacções com as crianças, e analisar o feed-back que lhes transmitimos.

Ao termos o objectivo de aumentar o número de comportamentos positivos por parte duma criança, será através do elogio, do carinho no momento certo, que o atingimos. Nestas situações verifica-se a regra do que é salientado tende a repetir-se. Uma criança, ao efectuar um comportamento desejável, se obtiver a atenção positiva, uma recompensa (elogio, miminho, incentivo, não se trata de recompensa material), terá maior tendência a repetir esse comportamento no futuro. Se, no sentido inverso, atribuirmos atenção (mesmo que negativa) à criança quando tem comportamentos incorrectos, repreendendo-a, enquanto que não a estimulamos ao realizar uma atitude correcta, pois partimos do princípio que faz apenas o que é seu dever, estamos a estimular o comportamento indesejável. As crianças querem/necessitam de atenção e, se não a obtiverem através de comportamentos positivos, vão requere-la com comportamentos indesejáveis.

É claro que não se pede que se deixe de repreender as crianças quando existe essa necessidade, não é esse o propósito. Ao longo do seu desenvolvimento, é fundamental que a criança explore o seu mundo, e isso implica que os adultos necessitem colocar limites aos seus filhos. Essa curiosidade e interesse são saudáveis por parte das crianças, mas o papel dos pais passa por promover a sua socialização, o que leva a por limitar a sua exploração quando necessário. Um dos papéis do educador passa por transmitir e ensinar o que a criança pode ou não realizar, incutindo-lhe regras e limites essenciais para o seu desenvolvimento e segurança. O que se pretende é que, além do referido, se estimule a criança pelos bons movimentos que realiza. O elogio, o incentivo, a confiança que lhes fornecemos são ferramentas que ela interioriza, e que lhe ajudam a sentir confiança em si para explorar o mundo, e para resolver os problemas de forma autónoma, confiando em si, nos seus recursos, e nas pessoas que lhe são significativas.

Ao longo da nossa convivência com as crianças, por vezes tendemos a esquecer que são crianças, e que possuem uma capacidade de entendimento distante da dos adultos. Também assim o é no modo como lidam com os elogios como com as críticas. Ao realizarmos uma crítica a um adulto, ele poderá ter a capacidade de analisar o que lhe foi comunicado, e ajustar o seu comportamento de modo a evitar essa punição. Contudo, este processo mental poderá ser muito complexo para uma criança e, até certas idades, impossível de realizar. Ou seja, para uma criança que recebeu uma crítica, poderá ser muito difícil alterar e ajustar o seu comportamento, pois ainda não possui a maturidade cognitiva que lhe permita compreender que, para evitar receber a repreensão, tem de mudar o comportamento "X" pelo "Y". No momento de repreender, pede-se paciência aos educadores, cujo papel não poderá passar apenas pela crítica, mas igualmente pelo ensinar à criança o modo correcto de agir, mostrando sempre a esperança de que na próxima vez a criança será bem sucedida.

Esta dificuldade cognitiva em ajustar o comportamento aquando de uma crítica, não se verifica no momento em que recebe um elogio por um bom comportamento. Nesse caso, trata-se de um processo cognitivo mais elementar, em que apenas realiza uma associação directa entre o comportamento realizado e a atenção positiva recebida. Por aí passa frequentemente o sucesso na mudança de comportamento das crianças, o salientar os aspectos positivos, de forma a tornarem-se mais frequentes, e a não atribuição de atenção às pequenas atitudes negativas, procurando que ocorram com menos frequência. Quando não é possível desvalorizar, e a repreensão torna-se necessária, importa explicar à criança o que fez de forma incorrecta, instruindo-a sobre o procedimento desejado e, claro, mostrar-lhe que sabemos que ela conseguirá ser bem sucedida no futuro.

É importante focar uma pequena nota no que se refere às repreensões e aos castigos. Quando o adulto se depara com a necessidade de repreender uma criança, o seu propósito não é o vingar-se ou fazer mal à criança. O objectivo é sempre o de alterar o comportamento, que a criança tenha consciência de que o que realizou é incorrecto, e que esperamos no futuro que altere o comportamento específico que o levou à repreensão. Dessa forma, ao falarmos com a criança, devemos evitar expressões como o "És sempre assim", "Nunca fazes nada bem", entre outras. O mal de expressões como as referidas (entre outras) é que, além de não comunicarmos à criança qual o comportamento que consideramos incorrecto, não lhe transmitimos a esperança de o poder alterar, qualificamo-la de forma negativa, estamos a prejudicar a autoconfiança e a obstaculizar um sucesso futuro. Quanto ao comportamento em questão, é importante referir, de forma clara, o que desaprovamos, pois é o que queremos modificar e, de forma construtiva e optimista, comunicar-lhe o que esperamos dela, delegando-lhe a responsabilidade de confiarmos que, no futuro, conseguirá realizar o comportamento desejado. Expressões como as referidas anteriormente (sempre e nunca) funcionam mais como uma avaliação geral à criança, ao invés de focar o comportamento específico, aquele que realmente queremos alterar.

Optimismo ou fuga aos problemas?

Esta perspectiva de encarar o papel educativo e, em geral, a vida não implica a negação e a desvalorização dos problemas e dificuldades que surgem. O que incentiva e estimula é uma perspectiva construtiva, centrada na procura de soluções para os mesmos. Nesses aspectos, a dinâmica familiar possui uma importância vital no desenvolvimento da criança. É nos diversos momentos, que tão irreflectidamente desvalorizamos que podemos realizar a diferença: no caminho para casa; nas refeições; na realização de tarefas escolares, entre outras.

Nos diálogos importa valorizar as qualidades da criança (e dos adultos), apreciar os seus esforços, e transmitir a confiança de que podem/conseguem ultrapassar os problemas com que se deparam, pois têm esse potencial. Procurem adoptar na vossa família um poder democrático, em que todos possuem opiniões válidas e interessantes, e com o qual é possível estimular a troca de ideias, mesmo que opostas, promovendo a aceitação e o diálogo numa perspectiva de procura de soluções, ao invés da passividade e pessimismo.

Cabe-nos a nós questionarmo-nos sobre as coisas boas da nossa vida, e fazê-lo com as crianças.
Tão frequentemente, ao falarmos entre nós, de imediato fazemos referências ao que de mau nos ocorre, e esquecemo-nos do quão bom é viver. Todos nós passamos por acontecimentos positivos e negativos, essa é uma realidade. A grande diferença encontra-se no modo como eles são vivenciados e explicados. Ao passo que um pessimista terá uma maior tendência em acreditar o acontecimento negativo como sua culpa, e a acreditar que "será sempre assim", e que "não há nada a fazer"; o optimista tenderá a justificar esse mesmo acontecimento como algo pontual, que aconteceu naquelas circunstâncias, mas acreditando que existe a possibilidade de solucioná-lo.

Deste modo, o que se expressa às nossas crianças influencia-as muito precocemente. Por exemplo, uma criança que recebe uma nota negativa, tenderá a pensar que é "burra", que não tem capacidades para aprender, ou poderá acreditar que teve esta nota porque o teste foi difícil, e começar a planear o que terá de realizar, para que, no próximo, tenha uma boa nota. Estas "pequenas" diferenças têm implicações, quer no futuro próximo (o modo como se implica no próximo teste), quer na idade adulta. Cabe-nos a nós reflectir sobre como queremos/podemos apetrechar as nossas crianças, e que modelos queremos ser.

"A vida é como um cobertor demasiado pequeno. Puxa-se para cima e fica-se com os pés de fora, sacudimo-lo para baixo e ficamos a tremer de frio nos ombros; mas as pessoas bem dispostas conseguem encolher os ombros e passar uma noite muito confortável."
Marion Howard

Sexualidade da Criança

Ao abordar o tema da Educação Sexual, deparamo-nos com uma realidade com a qual pais e educadores sentem a responsabilidade de informar e debater questões ligadas à sexualidade, com os seus filhos. Contudo, por se tratar de uma área que pode, muitas vezes, ser interpretada de forma reducionista, com uma carga sexual-genital, os agentes educativos tendem a sentir algum embaraço e insegurança na forma de abordar o tema. Na generalidade dos casos, a inexistência de modelos na sua própria infância, torna esta tarefa parental nova e, deste modo, vêm-se como menos preparados para a realizar.

Para tal há que considerar o que é a Educação Sexual: é realizada mesmo quando julgamos que não o fazemos. Ela está ligada à vida: aos momentos que partilhamos, ao mudar as fraldas, os afectos, as carícias, comentários a um programa de televisão, o momento de dar banho, os exemplos que damos, etc.

Desta forma, é importante que tenhamos em conta que estamos a moldar as nossas crianças, bem como a transmitir-lhes valores, mesmo quando pensamos que não. Como essa educação sexual já está, mesmo que implicitamente, a ser desempenhada, é chegada a altura de assumirmos a importância da sua abordagem explícita.

Grande parte dos problemas ligados à vivência da sexualidade têm origem na falta de informação e na ansiedade daí gerada. Da mesma forma, a ignorância sobre estes assuntos poderá resultar numa baixa auto-estima, promover um desenvolvimento não harmonioso, desencadear situações de culpa ou de medo. Mesmo actualmente, numa sociedade caracterizada pela facilidade em adquirir informação, a importância da família é sempre distinta, dada a tonalidade emocional e afectiva implícita.

Daí a importância de promover uma educação sexualizada, e contribuir para a formação de crianças, jovens e futuros adultos com mais capacidade de se sentirem bem consigo próprios, de amar, de se realizarem sexualmente, de se sentirem felizes.

Nascimento da criança
A sexualidade é uma força viva do indivíduo, um meio de expressão dos afectos, uma maneira de cada um se descobrir, bem como descobrir os outros.

Desta forma, é desde o nascimento da criança que se deverá começar a pensar em Educação Sexual, algo que não pode ser considerado distinto de todo o processo educativo.

Nos primeiros meses de vida, toda a relação está ligada ao tocar, às carícias, às respostas dadas às necessidades que a criança vai manifestando, ao contacto corporal que se permite e se promove. Esta fase centra-se muito na estimulação da capacidade de comunicar, de desenvolver sentimentos associados à segurança e à confiança, que permitirão equilibrar e estruturar as reacções afectivas que se desenvolverão no percurso de vida. Desta forma, estamos a promover as bases para uma boa evolução afectiva, sexual e social.

Identidade Sexual
O processo que vai permitir à criança encontrar a sua identidade sexual, o ver-se como pertencente ao sexo que tem, inicia-se muito precocemente. Na maioria dos casos, tal começa a ser trabalhado mesmo antes do nascimento da criança (a decoração do quarto, as cores das roupas, os brinquedos escolhidos, etc.).

Este é um desafio que obriga os pais a estarem abertos e atentos à sociedade actual, de forma a não se deixarem guiar por uma educação baseada em valores e normas mais tradicionais dos papéis sociais masculinos e femininos. Um rapaz não o deixa de ser só por desejar brincar com bonecas, nem se deixa de ser uma rapariga por gostar de jogar à bola e subir a árvores, antes pela possibilidade de experimentação se consolida o género.

Cabe aos pais e aos educadores ir aprovando comportamentos facilitadores do bem-estar da criança durante o desenvolvimento do seu papel sexual, aceitando-o positivamente e facilitando assim o seu processo pessoal de construção da identidade sexual.

A idade dos "porquês"
O desenvolvimento da linguagem e a sua manipulação, vai permitir explorar o mundo à sua volta. Neste período surge, por volta dos três anos, a fase do "Porquê?". Nesta etapa de vida da criança, a temática sexual é quase obrigatória. Temas como as diferenças anatómicas, de roupa, de jogos, a sua origem (a célebre pergunta: "de onde vêm os bebés?"), são motivos que causam enorme interesse e curiosidade na criança.
Curiosidade pelo corpo
Paralelamente às dúvidas e curiosidades que coloca através da linguagem, a criança explorará o seu corpo, tentando conhecer e promover as sensações que produz. É a fase do reconhecimento do seu sexo, do toque e da observação. É frequente mostrar os seus órgãos sexuais, bem como compará-los com os das outras crianças para melhor se reconhecer nesse confronto com o outro.
Para os pais, o facto de uma criança explorar o seu corpo na procura de o conhecer e de sentir prazer, é uma actividade que frequentemente causa apreensão. Porém, estes comportamentos são naturais, fazem parte do desenvolvimento, e é com essa mesma naturalidade que deverão ser encarados. É possível orientar a criança, sem a culpabilizar pelo facto de ter essas manifestações na intimidade, dizendo frases do tipo: "Faz antes isso no teu quarto". Há que evitar atitudes repressivas, que podem ir no sentido inverso ao desejado: a promoção do bem-estar no seu corpo.
Ao nível do jogo, as crianças procuram brincadeiras que incluam o toque e a descoberta do corpo: brincar aos pais e às mães, aos médicos e aos doentes, etc. Estes jogos funcionam como uma ferramenta, que permitirá a comparação dos seus órgãos com os dos amigos e os dos adultos, bem como a descoberta de que lhes dão prazer. É nesta fase que provavelmente se inicia a associação entre sentimentos associados a uma vivência sexual e órgãos genitais.
Cabe aos adultos dar à criança a oportunidade de realizar com tranquilidade e sem fantasmas a exploração dos órgãos genitais. Desta forma, estaremos a contribuir para que a criança possua uma imagem corporal mais íntegra e satisfatória.

A relação triangular pai, mãe e criança

Nesta fase de descoberta dos órgãos sexuais e de observação das diferenças entre géneros, é natural que existam diferenças no relacionamento com os pais. Processa-se uma relação triangular com os dois pais e o(a) filho(a), que vai ser caracterizada, consoante o género da criança, pela atracção do pai ou da mãe numa rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. É através deste "conflito" potencial, que será resolvido pela aproximação progressiva do pai em relação ao filho e da mãe em relação à filha (processo de identificação), que vai estruturar a criança em relação ao próprio sexo, de uma forma diferenciada para o rapaz e para a rapariga.


É fundamental os pais compreenderem, com ternura, esta fase de crescimento, marcando, no entanto, os limites dos sonhos e desejos dos seus filhos. Tal passa pela afirmação dos seus próprios afectos e pela ligação de amor entre o pai e a mãe. Os filhos devem aprender a respeitar a existência de intimidade entre os pais, sem que isso corresponda a um sentimento de perda de amor.

Ultrapassada esta fase (a denominada fase Edipiana), existe uma grande mudança na forma como as crianças vivenciam a sexualidade.


Os seis anos, e a entrada para a escola
Entre os seis e os sete anos de idade, verificam-se grandes alterações na vida da criança. Este período coincide com a entrada para a escola e, com ela, surgem novos companheiros, outros adultos, importantes aprendizagens e novas exigências pessoais e sociais.

Podes ser considerada como uma fase promotora do desenvolvimento intelectual. Nesta, a actuação dos pais e educadores deverá centrar-se na resposta sincera às questões colocadas e na promoção do diálogo, aproveitando para tal todas as situações, como são exemplo a leitura de livros, comentários a filmes e programas televisivos, ocorrências do quotidiano, etc.

Cabe aos adultos de referência reflectir sobre o que querem que seja assimilado pelas crianças. Analisar os nossos comportamentos, ponderando se estes transmitem o que pretendemos, os modelos dos quais as procuramos dotar, os horizontes que lhes apresentamos e ajudamos a descobrir. Enfim, a nossa filosofia, ideologia e atitudes influenciarão os comportamentos e sentimentos das crianças, imprimindo-lhes estes aspectos de diferentes modos para toda a vida.


Notas Finais
É importante os pais reviverem narrativamente e entre si a sua própria infância e adolescência: o modo como foram sentidas as questões, dúvidas associadas à sexualidade, o meio pelo qual acederam à informação e, a percepção e sentimentos agregados a estas informações recolhidas. Este diálogo do recordar, permite ensaiar e debater, de forma antecipada e estruturada, questões relativas à educação dos filhos do casal.

Durante a infância, as crianças questionam-se sobre os mais variados temas. Estas perguntas devem ser atendidas à medida que vão surgindo, permitindo a assimilação e estruturação das suas respostas, daí que devem ser adaptadas ao nível etário da criança. De igual modo, também noutras áreas, convém aproveitar as oportunidades que vão surgindo no quotidiano para debater estas questões. Importa que as crianças se sintam acompanhadas por pessoas nas quais confiem, adultos que vivem o que ensinam, e que são capazes de estabelecer laços afectivos. Salienta-se ainda que, o que é dito terá de ser repetido outras vezes, pois o seu crescimento possibilita uma compreensão diferente da mesma questão.

Na abordagem do tema da sexualidade, é conveniente associá-lo ao amor, à ternura, ao bem-estar e ao prazer, para que as crianças compreendam que, enquanto forem crianças, não poderão ter relações sexuais, pois o corpo não está suficientemente amadurecido. Como outras coisas na vida, elas acontecerão mais tarde.

A sexualidade, como componente da vida do indivíduo, deverá ser transmitida de uma forma positiva, salientando as qualidades da comunicação, da ternura, da transmissão dos afectos e do prazer.


O modo como a ternura , o amor e o carinho são expressos entre os pais, e de pais para filhos, é a forma mais autêntica e genuína de comunicação da afectividade e sexualidade. Como lidamos com o bebé e a criança, a acarinhamos, comunicamos com o seu corpo, conversamos, vai repercutir-se na qualidade das relações futuras, isto é, o futuro começa hoje.

Presente de Natal: Brincar!

Numa sociedade caracterizada pela azáfama de afazeres quotidianos, é frequente os adultos não investirem activamente numa das principais ferramentas que as crianças possuem para conhecer, explorar e compreender o mundo: "brincar".

O acto de "brincar", ao longo da História tão frequentemente desvalorizado e destituído de valor prático, serve de base para a aquisição e promoção de competências fundamentais para o desenvolvimento global da criança. Actualmente assume tal importância que no Princípio VII da Declaração Universal dos Direitos da Criança é consagrado o direito à criança de brincar. Existe um amplo consenso sobre a sua importância em múltiplas áreas do desenvolvimento infantil, e o "brincar", o jogo e o brinquedo são actualmente alvo de estudos científicos.
Nesta perspectiva, defende-se o "brincar" como fundamental para o desenvolvimento da criança, bem como a participação dos pais nas mesmas, já que o "brincar":

- É, por excelência, uma forma da criança comunicar e expressar-se;

- É a forma mais natural (e divertida) da criança aprender. Desta forma, a aprendizagem realiza-se de uma forma espontânea, sem o risco de insucessos, apenas pelo prazer de explorar;

- É o principal motor de desenvolvimento global da criança. Quer a nível motor, social, cognitivo e afectivo. O conjunto de desafios provocados e experimentados através do brincar proporcionam à criança a possibilidade de testar os seus limites, de correlacionar ideias, de estabelecer relações lógicas, de construir conceitos, estimular a linguagem, aprender a compreender e lidar de forma eficaz com os sentimentos;

- Permite à criança conhecer e inserir-se na sua sociedade, socializar-se com o grupo de pares e com os adultos, fazer amigos;

- Os pais, ao brincarem com os seus filhos, além de lhes possibilitarem a interiorização dos seus valores, estão a demonstrar interesse pelo meu "mundo", pela forma como conhecem e exploram a realidade. Deste modo, revelam ao seu filho o amor que sentem por ele, e a importância que os atribuem às suas brincadeiras o que, além de valorizar o acto da criança, aumenta o seu interesse, fomenta a criatividade e contribui para a auto-estima da mesma.

Contudo, antes de mais, a criança deve brincar porque brincar é bom, faz bem. É divertido, dá vontade de rir, e contribui para que se sinta feliz. Este Natal, pede-se aos pais que dêem tempo às crianças para brincarem, que brinquem com elas, e que participem activamente no desenvolvimento de todas as capacidade dos seus filhos.

A todos um Bom Natal.

A criança e o luto

Quando a criança perde alguém especial

Facilmente um pai, habituado a observar o seu filho a brincar, verifica o elevado número de vezes em que o tema morte surge nas suas fantasias e brincadeiras. Esta é uma questão que, muito precocemente, causa curiosidade, interesse e medo às crianças, que a procuram explorar através da melhor ferramenta que possuem para conhecer o mundo: o brincar. Para uma criança, a perda de uma pessoa amada é um acontecimento que quase sempre gerador de angústia nos pais, que se confrontam, por um lado, com a sua própria dor e, por outro lado, com a ansiedade causada pelas dúvidas de como abordar e lidar com o acontecimento traumático junto do seu filho.

A perda, e o luto a ela associado, é uma experiência quase inevitável no percurso de vida de uma pessoa. Independentemente da faixa etária, o rol de sentimentos envolto na perda de alguém que se ama é uma experiência sempre dolorosa e difícil de suportar. Para uma criança, a perda de um ente significativo é quase sempre caracterizada por um turbilhão de sentimentos, para os quais não possui os mecanismos que permitam lidar com eles de forma eficaz, e muito menos entende-los. Daí a importância dos adultos que a acompanham, e estão consigo nestes momentos difíceis. Os pais, familiares, pessoas próximas, entre outros, podem ajudar, não só nos momentos próximos à cauda da dor, mas em todo o processo de luto por que a criança terá de passar.

Numa abordagem junto de uma criança que perde alguém significativo, é necessário encarar a tristeza e a dor que acompanham esse momento como parte integrante de todo o processo ligado à experiência de perda. Porém, convém assinalar que o luto não advém apenas da morte de alguém, podendo estar associado à perda de um animal de estimação, de uma separação ou divórcio dos pais, entre outras situações. De uma forma geral, o luto poderá caracterizar-se pelo conjunto de sentimentos e comportamentos ligados ao sofrimento causado por uma perda.

Sentir-se triste, num momento em que lida com uma perda, é natural, além de terapêutico. Porém, aos adultos, geralmente causa dor ver uma criança a sofrer mas, ao invés de se procurar tentar acabar com o sofrimento da criança (tarefa provavelmente inexequível), é importante acompanha-la na livre expressão dos seus sentimentos, compreendê-los e empatizar com estes, de modo a que sinta que é compreendida, e que a sua dor é aceite.

Prever ou antecipar o comportamento de uma criança após a notícia da perda é uma tarefa irrealizável. As reacções diferem de criança para criança, podendo o rol de comportamentos diferir desde a tristeza absoluta, até o parecer indiferente (apesar de não o ser), o que geralmente causa espanto a quem assiste. São comuns igualmente atitudes de isolamento e afastamento das outras pessoas, comportamentos agressivos, apatia, surgimento de sintomas psicossomáticos, desinvestimento académico, entre outras.


A notícia

Não existe um guião do modo correcto de transmitir a notícia da perda a uma criança. Será sempre um caso em que requererá flexibilidade, o uso de calma e muita paciência. Prepare-se para a possibilidade de ter de repetir, ou explicar de forma diferente, pois o que foi dito poderá ser questionado pela criança, ou até mesmo necessitar de aprofundar mais detalhadamente do que o que estava à espera, se a criança assim o requisitar. Há falta das palavras correctas para transmitir a notícia (o que caberá sempre aos adultos, pelo recurso à sua experiência, bom senso e intuição), pode-se procurar propiciar as melhores condições para o realizar. Nesse sentido, é aconselhável que quem fale com a criança lhe seja próxima (por exemplo, no caso de morte de um pai, poderá ser aconselhável a mãe falar com a criança). Mais que as palavras, conta que o que é dito o seja com amor, e esse amor sente-se junto das pessoas que nos são mais próximas. Num momento difícil como é a da morte, é fundamental que a criança se sinta apoiada e acompanhada pelos que mais ama. Abraços, beijos, mimos, quando sentidos e aceites pela criança, são sempre bem vindos.

Reconhece-se como componente facilitador em toda a relação com a criança, mas também nesta ocasião, a honestidade. Apesar de, como referido anteriormente, não existirem guias ou discursos pré-elaborados, pode-se com certeza afirmar que o mentir, ocultar ou utilizar eufemismos para a morte, não é recomendado. A criança, insegura por tudo o que está a passar, só poderá ser prejudicada pela desconfiança que resulta da descoberta de uma mentira por parte de quem a ama e lhe deveria transmitir segurança. Mais cedo ou mais tarde a criança saberá a verdade dos factos. Dessa forma, mais vale que o saiba de adultos significativos, que lhe podem dar segurança, conforto e amparo.

Os adultos, com a melhor das intenções, procuram proteger a criança , recorrendo compreensivelmente ao uso de expressões como “Está muito doente e foi para longe para se curar”, ou “Está a dormir para sempre”, que não a ajudam. Ao invés de tal, é aconselhável a utilização de uma abordagem sincera e directa. Não seja redundante, utilize a palavra morte, e explique à criança o sucedido, tendo sempre o cuidado de adequar o discurso à sua idade e maturidade.

A honestidade e sinceridade são necessárias não apenas na escolha das palavras com as quais é transmitida a notícia à criança, mas ao longo de todo o processo de luto. Com frequência, os adultos incorrem no erro de tentar proteger as crianças do seu sofrimento, e não se sentem livres pana os manifestar quando junto delas. O aconselhável será o oposto. Uma criança, ao se deparar com a morte de alguém, terá dificuldades em lidar com toda a panóplia de sentimentos que a invadem, e recorrerá aos seus modelos de referência para procurar aprender a lidar com sensações tão fortes. Deste modo, o facto dos adultos partilharem com os mais novos os seus sentimentos, a sua tristeza, o choro, permite-lhes sentirem-se mais confortáveis e aceites com o que sentem, e em partilhá-lo com quem os rodeia, não incorrendo na ideia de que esconder os seus sentimentos é o mais correcto a fazer, visto os adultos junto a si o realizarem. O chorar e a tristeza são salutares, e são o primeiro passo para lidar e reparar a dor.

Com a premissa de um ambiente de carinho e apoio criado à volta da criança, possibilita-se a criação de condições favoráveis para partilhar a sua dor, tristeza, zanga... Estas são reacções naturais, que variam muito de criança para criança. O importante é, além do adulto falar, dar espaço para que a criança fale, se manifeste, e sinta que tem quem a oiça e a acompanhe na sua dor.


Rituais fúnebres / Rituais de morte


Os rituais fúnebres e, particularizando os católicos que assumem o grosso da representação cultural e religiosa portuguesa, assumem a morte e o início do processo de luto como uma solenidade e parcimónia que acentua a dor e a perda definitiva. Perante este cenário, os adultos enfrentam dúvidas no que diz respeito à assistência ou não das crianças às cerimónias do funeral, bem como acerca da permissão para ver o corpo da pessoa falecida, o que constitui um factor causador de ansiedade para os adultos, que se questionam sobre a melhor opção a tomar.

Tanto o velório como o funeral possuem um papel fundamental na forma como uma pessoa se despede de alguém, e inicia o seu processo de luto. Este é um momento que ajuda à consciencialização de que uma pessoa morreu, e permite que, nestes primeiros momentos de luto, uma pessoa se sinta apoiada e acompanhada na sua dor, e na despedida de quem ama. Estas razões são válidas tanto para um adulto, como para uma criança.

Desta forma, é muito importante que a criança seja envolvida na tomada de decisão de assistir ou não ao funeral, bem como a de ver o morto ou não (salvaguardando sempre que o defunto não esteja em condições capazes de chocar a criança). O desejo da criança terá de ser sempre um factor a tomar em conta na hora da tomada de decisão da criança presenciar ou não o funeral e, nessa escolha, deverá sentir-se aceite e acompanhada pelos que ama. Durante a cerimónia, as crianças poderão querer assisti-la na sua totalidade ou, como por vezes ocorre, poderão saber que já assistiram o suficiente, e pedir para irem embora. Em qualquer das situações, é fundamental aceitar a sua vontade, e apoiá-la.

No caso da criança nunca ter assistido a um funeral, poderá não saber do que se trata. Nestas situações, é conveniente que os adultos expliquem os rituais da cerimónia, o que irá acontecer antes, durante e após esse momento, além de preparar as crianças para as diferentes respostas comportamentais e emocionais das outras pessoas presentes (explicar que poderá ver muitas pessoas a chorar, talvez gritar...). Mais uma vez, será aconselhável que as explicações sejam directas e simples, sem rodeios, e adequadas à maturidade da criança. Elas saberão procurar as informações que necessitam, podendo muitas vezes passar por questões práticas (quanto tempo demora, como é que vai o caixão, entre outras). Os adultos significativos devem preparar-se para responder às mais diferentes questões que a criança colocar, manifestando a abertura necessária para que ela se sinta confiante em colocá-las.


O processo de luto

É sempre difícil lidar com o luto. Independentemente da faixa etária, quer se seja adulto ou criança, a perda de um ser amado causa sempre dor. Visto ser a tristeza um sentimento comum nas diferentes faixas etárias face à morte, tal como nos adultos, será comum que as crianças passem por períodos de profunda tristeza. E, tal como os adultos, as crianças necessitarão de sentir-se apoiadas e acompanhadas pelos que ama, de forma a superar esta dor, que realmente poderá nunca desaparecer inteiramente.

A forma como a criança reage perante a morte não é muito distinta da forma como lida com outras perdas, a intensidade é que pode diferir. Apesar de não serem rígidas, e de cada criança ser “um mundo”, é possível, de forma geral, verificar-se a existência de fases distintas na forma como lidam com o luto:

1- Choque: prende-se com o conjunto de reacções iniciais fase ao conhecimento da perda do objecto significativo. O tipo de reacções varia muito de criança para criança, pelo que será de esperar o mais variado tipo de comportamentos, e aceitá-los enquanto naturais;

2- Protesto/Negação: esta fase é caracterizada pelo estado de dúvida e dificuldade em aceitar a perda. De forma inconsciente, este mecanismo de defesa faz com a criança não encare, ou procure não acreditar no sucedido;

3- Desorganização / Depressão: verifica-se quando se começa a encarar como real e irreversível o acontecimento traumático. Devido a tal, a criança sente-se frequentemente triste, poderá possuir sentimentos de culpa, ansiedade, medo e isolamento. O seu dia-a-dia poderá ser caracterizado pelas rápidas alterações de humor, bem como pela existência de comportamentos agressivos;

4- Reconstrução/Reorganização: após a dor da perda, a criança começa, aos poucos, a ajustar-se às mudanças que se sucederam na sua vida. Verifica-se um reajustamento na sua vida, no qual de certa forma aprende a lidar com a dor, mas não a viver para ela.


Apesar do luto não ser necessariamente caracterizado por um percurso linear, antes pelos diferentes avanços e retrocessos, e pelas diferenças de situação para situação, o conhecimento destas fases pode permitir uma melhor compreensão das diferentes reacções da criança, e assim uma melhor adaptação das respostas por parte dos adultos.

A forma como a criança suportará esta dor estará sempre ligada ao apoio que sente dos que lhe são próximos. Será esse apoio que lhe permitirá transmitir todos os sentimentos que a invadem, na procura de empatia, de compreensão e conforto. Daí o papel primordial da honestidade na relação. Aos adultos que acompanham a criança pede-se que manifestem também os seus sentimentos, que os partilhem com as crianças e que, através do seu exemplo, como modelos de relacionamento para a criança, a ajudem a encontrar estratégias para lidar com a sua dor.

A tristeza do luto funciona como um “alarme”, em que se pede aos que nos são mais próximos que se juntem, que apoiem, e que ajudem a ultrapassar a dor, em conjunto. Por parte da criança, o sentir que também ajuda os adultos a ultrapassar a sua dor, ajuda-o a sentir-se importante, e a acreditar que, em conjunto e tal como os adultos, conseguirá ultrapassar este período.

Durante o período de luto, os sentimentos predominantes nas crianças são a tristeza, a revolta e o medo. Porém, as suas reacções são frequentemente caracterizadas por alterações súbitas de humor. Uma criança poderá passar rapidamente de períodos de grande tristeza, para outros de apatia, de isolamento, bem como adoptar comportamentos que fazem parecer que o acontecimento traumático lhes é indiferente. Todos estes sentimentos e comportamentos são naturais, em concreto o brincar e o sorrir, e cabe aos adultos que a acompanham salvaguardarem-se de que ela se sente apoiada, e de que existem condições para que se expresse emocionalmente. Este é um processo natural, pelo que não será necessário pressionar a criança. Esta saberá quando é o momento ideal para o fazer, e procurará a(s) pessoas com quem o quer realizar. Com relativa frequência, a(s) pessoa(s) escolhidas podem não ser as mais próximas, poderá ser uma professora ou educadora. Respeite a escolha e o tempo da criança.

Acresce referir que o propósito do presente artigo não procura dar as respostas concretas, fórmulas ou constituir um manual de instruções para os pais/educadores. Ao invés de procurar essa tarefa destinada ao fracasso, procura, acima de tudo, ajudar os adultos que lidam com crianças que passam por situações de perda a sentirem-se mais confiantes de si e preparados para o momento em que se depararem com uma situação geradora de dor como a perda. Procura-se, acima de tudo, transmitir a consciência e a confiança de que os adultos possuem a capacidade de ajudar as crianças de forma eficaz a lidar com estas situações, sempre penosas. Recomenda-se apenas os ingredientes essenciais: o amor, aliado ao contributo insubstituível do tempo. Esse amor, quando baseado numa relação sólida e honesta entre um adulto e uma criança, é o principal instrumento para permitir à criança ultrapassar de forma eficaz o leque de emoções associados à perda, ajudando-a a reconciliar-se com a vida.