Sexualidade da Criança

Ao abordar o tema da Educação Sexual, deparamo-nos com uma realidade com a qual pais e educadores sentem a responsabilidade de informar e debater questões ligadas à sexualidade, com os seus filhos. Contudo, por se tratar de uma área que pode, muitas vezes, ser interpretada de forma reducionista, com uma carga sexual-genital, os agentes educativos tendem a sentir algum embaraço e insegurança na forma de abordar o tema. Na generalidade dos casos, a inexistência de modelos na sua própria infância, torna esta tarefa parental nova e, deste modo, vêm-se como menos preparados para a realizar.

Para tal há que considerar o que é a Educação Sexual: é realizada mesmo quando julgamos que não o fazemos. Ela está ligada à vida: aos momentos que partilhamos, ao mudar as fraldas, os afectos, as carícias, comentários a um programa de televisão, o momento de dar banho, os exemplos que damos, etc.

Desta forma, é importante que tenhamos em conta que estamos a moldar as nossas crianças, bem como a transmitir-lhes valores, mesmo quando pensamos que não. Como essa educação sexual já está, mesmo que implicitamente, a ser desempenhada, é chegada a altura de assumirmos a importância da sua abordagem explícita.

Grande parte dos problemas ligados à vivência da sexualidade têm origem na falta de informação e na ansiedade daí gerada. Da mesma forma, a ignorância sobre estes assuntos poderá resultar numa baixa auto-estima, promover um desenvolvimento não harmonioso, desencadear situações de culpa ou de medo. Mesmo actualmente, numa sociedade caracterizada pela facilidade em adquirir informação, a importância da família é sempre distinta, dada a tonalidade emocional e afectiva implícita.

Daí a importância de promover uma educação sexualizada, e contribuir para a formação de crianças, jovens e futuros adultos com mais capacidade de se sentirem bem consigo próprios, de amar, de se realizarem sexualmente, de se sentirem felizes.

Nascimento da criança
A sexualidade é uma força viva do indivíduo, um meio de expressão dos afectos, uma maneira de cada um se descobrir, bem como descobrir os outros.

Desta forma, é desde o nascimento da criança que se deverá começar a pensar em Educação Sexual, algo que não pode ser considerado distinto de todo o processo educativo.

Nos primeiros meses de vida, toda a relação está ligada ao tocar, às carícias, às respostas dadas às necessidades que a criança vai manifestando, ao contacto corporal que se permite e se promove. Esta fase centra-se muito na estimulação da capacidade de comunicar, de desenvolver sentimentos associados à segurança e à confiança, que permitirão equilibrar e estruturar as reacções afectivas que se desenvolverão no percurso de vida. Desta forma, estamos a promover as bases para uma boa evolução afectiva, sexual e social.

Identidade Sexual
O processo que vai permitir à criança encontrar a sua identidade sexual, o ver-se como pertencente ao sexo que tem, inicia-se muito precocemente. Na maioria dos casos, tal começa a ser trabalhado mesmo antes do nascimento da criança (a decoração do quarto, as cores das roupas, os brinquedos escolhidos, etc.).

Este é um desafio que obriga os pais a estarem abertos e atentos à sociedade actual, de forma a não se deixarem guiar por uma educação baseada em valores e normas mais tradicionais dos papéis sociais masculinos e femininos. Um rapaz não o deixa de ser só por desejar brincar com bonecas, nem se deixa de ser uma rapariga por gostar de jogar à bola e subir a árvores, antes pela possibilidade de experimentação se consolida o género.

Cabe aos pais e aos educadores ir aprovando comportamentos facilitadores do bem-estar da criança durante o desenvolvimento do seu papel sexual, aceitando-o positivamente e facilitando assim o seu processo pessoal de construção da identidade sexual.

A idade dos "porquês"
O desenvolvimento da linguagem e a sua manipulação, vai permitir explorar o mundo à sua volta. Neste período surge, por volta dos três anos, a fase do "Porquê?". Nesta etapa de vida da criança, a temática sexual é quase obrigatória. Temas como as diferenças anatómicas, de roupa, de jogos, a sua origem (a célebre pergunta: "de onde vêm os bebés?"), são motivos que causam enorme interesse e curiosidade na criança.
Curiosidade pelo corpo
Paralelamente às dúvidas e curiosidades que coloca através da linguagem, a criança explorará o seu corpo, tentando conhecer e promover as sensações que produz. É a fase do reconhecimento do seu sexo, do toque e da observação. É frequente mostrar os seus órgãos sexuais, bem como compará-los com os das outras crianças para melhor se reconhecer nesse confronto com o outro.
Para os pais, o facto de uma criança explorar o seu corpo na procura de o conhecer e de sentir prazer, é uma actividade que frequentemente causa apreensão. Porém, estes comportamentos são naturais, fazem parte do desenvolvimento, e é com essa mesma naturalidade que deverão ser encarados. É possível orientar a criança, sem a culpabilizar pelo facto de ter essas manifestações na intimidade, dizendo frases do tipo: "Faz antes isso no teu quarto". Há que evitar atitudes repressivas, que podem ir no sentido inverso ao desejado: a promoção do bem-estar no seu corpo.
Ao nível do jogo, as crianças procuram brincadeiras que incluam o toque e a descoberta do corpo: brincar aos pais e às mães, aos médicos e aos doentes, etc. Estes jogos funcionam como uma ferramenta, que permitirá a comparação dos seus órgãos com os dos amigos e os dos adultos, bem como a descoberta de que lhes dão prazer. É nesta fase que provavelmente se inicia a associação entre sentimentos associados a uma vivência sexual e órgãos genitais.
Cabe aos adultos dar à criança a oportunidade de realizar com tranquilidade e sem fantasmas a exploração dos órgãos genitais. Desta forma, estaremos a contribuir para que a criança possua uma imagem corporal mais íntegra e satisfatória.

A relação triangular pai, mãe e criança

Nesta fase de descoberta dos órgãos sexuais e de observação das diferenças entre géneros, é natural que existam diferenças no relacionamento com os pais. Processa-se uma relação triangular com os dois pais e o(a) filho(a), que vai ser caracterizada, consoante o género da criança, pela atracção do pai ou da mãe numa rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. É através deste "conflito" potencial, que será resolvido pela aproximação progressiva do pai em relação ao filho e da mãe em relação à filha (processo de identificação), que vai estruturar a criança em relação ao próprio sexo, de uma forma diferenciada para o rapaz e para a rapariga.


É fundamental os pais compreenderem, com ternura, esta fase de crescimento, marcando, no entanto, os limites dos sonhos e desejos dos seus filhos. Tal passa pela afirmação dos seus próprios afectos e pela ligação de amor entre o pai e a mãe. Os filhos devem aprender a respeitar a existência de intimidade entre os pais, sem que isso corresponda a um sentimento de perda de amor.

Ultrapassada esta fase (a denominada fase Edipiana), existe uma grande mudança na forma como as crianças vivenciam a sexualidade.


Os seis anos, e a entrada para a escola
Entre os seis e os sete anos de idade, verificam-se grandes alterações na vida da criança. Este período coincide com a entrada para a escola e, com ela, surgem novos companheiros, outros adultos, importantes aprendizagens e novas exigências pessoais e sociais.

Podes ser considerada como uma fase promotora do desenvolvimento intelectual. Nesta, a actuação dos pais e educadores deverá centrar-se na resposta sincera às questões colocadas e na promoção do diálogo, aproveitando para tal todas as situações, como são exemplo a leitura de livros, comentários a filmes e programas televisivos, ocorrências do quotidiano, etc.

Cabe aos adultos de referência reflectir sobre o que querem que seja assimilado pelas crianças. Analisar os nossos comportamentos, ponderando se estes transmitem o que pretendemos, os modelos dos quais as procuramos dotar, os horizontes que lhes apresentamos e ajudamos a descobrir. Enfim, a nossa filosofia, ideologia e atitudes influenciarão os comportamentos e sentimentos das crianças, imprimindo-lhes estes aspectos de diferentes modos para toda a vida.


Notas Finais
É importante os pais reviverem narrativamente e entre si a sua própria infância e adolescência: o modo como foram sentidas as questões, dúvidas associadas à sexualidade, o meio pelo qual acederam à informação e, a percepção e sentimentos agregados a estas informações recolhidas. Este diálogo do recordar, permite ensaiar e debater, de forma antecipada e estruturada, questões relativas à educação dos filhos do casal.

Durante a infância, as crianças questionam-se sobre os mais variados temas. Estas perguntas devem ser atendidas à medida que vão surgindo, permitindo a assimilação e estruturação das suas respostas, daí que devem ser adaptadas ao nível etário da criança. De igual modo, também noutras áreas, convém aproveitar as oportunidades que vão surgindo no quotidiano para debater estas questões. Importa que as crianças se sintam acompanhadas por pessoas nas quais confiem, adultos que vivem o que ensinam, e que são capazes de estabelecer laços afectivos. Salienta-se ainda que, o que é dito terá de ser repetido outras vezes, pois o seu crescimento possibilita uma compreensão diferente da mesma questão.

Na abordagem do tema da sexualidade, é conveniente associá-lo ao amor, à ternura, ao bem-estar e ao prazer, para que as crianças compreendam que, enquanto forem crianças, não poderão ter relações sexuais, pois o corpo não está suficientemente amadurecido. Como outras coisas na vida, elas acontecerão mais tarde.

A sexualidade, como componente da vida do indivíduo, deverá ser transmitida de uma forma positiva, salientando as qualidades da comunicação, da ternura, da transmissão dos afectos e do prazer.


O modo como a ternura , o amor e o carinho são expressos entre os pais, e de pais para filhos, é a forma mais autêntica e genuína de comunicação da afectividade e sexualidade. Como lidamos com o bebé e a criança, a acarinhamos, comunicamos com o seu corpo, conversamos, vai repercutir-se na qualidade das relações futuras, isto é, o futuro começa hoje.

Presente de Natal: Brincar!

Numa sociedade caracterizada pela azáfama de afazeres quotidianos, é frequente os adultos não investirem activamente numa das principais ferramentas que as crianças possuem para conhecer, explorar e compreender o mundo: "brincar".

O acto de "brincar", ao longo da História tão frequentemente desvalorizado e destituído de valor prático, serve de base para a aquisição e promoção de competências fundamentais para o desenvolvimento global da criança. Actualmente assume tal importância que no Princípio VII da Declaração Universal dos Direitos da Criança é consagrado o direito à criança de brincar. Existe um amplo consenso sobre a sua importância em múltiplas áreas do desenvolvimento infantil, e o "brincar", o jogo e o brinquedo são actualmente alvo de estudos científicos.
Nesta perspectiva, defende-se o "brincar" como fundamental para o desenvolvimento da criança, bem como a participação dos pais nas mesmas, já que o "brincar":

- É, por excelência, uma forma da criança comunicar e expressar-se;

- É a forma mais natural (e divertida) da criança aprender. Desta forma, a aprendizagem realiza-se de uma forma espontânea, sem o risco de insucessos, apenas pelo prazer de explorar;

- É o principal motor de desenvolvimento global da criança. Quer a nível motor, social, cognitivo e afectivo. O conjunto de desafios provocados e experimentados através do brincar proporcionam à criança a possibilidade de testar os seus limites, de correlacionar ideias, de estabelecer relações lógicas, de construir conceitos, estimular a linguagem, aprender a compreender e lidar de forma eficaz com os sentimentos;

- Permite à criança conhecer e inserir-se na sua sociedade, socializar-se com o grupo de pares e com os adultos, fazer amigos;

- Os pais, ao brincarem com os seus filhos, além de lhes possibilitarem a interiorização dos seus valores, estão a demonstrar interesse pelo meu "mundo", pela forma como conhecem e exploram a realidade. Deste modo, revelam ao seu filho o amor que sentem por ele, e a importância que os atribuem às suas brincadeiras o que, além de valorizar o acto da criança, aumenta o seu interesse, fomenta a criatividade e contribui para a auto-estima da mesma.

Contudo, antes de mais, a criança deve brincar porque brincar é bom, faz bem. É divertido, dá vontade de rir, e contribui para que se sinta feliz. Este Natal, pede-se aos pais que dêem tempo às crianças para brincarem, que brinquem com elas, e que participem activamente no desenvolvimento de todas as capacidade dos seus filhos.

A todos um Bom Natal.

A criança e o luto

Quando a criança perde alguém especial

Facilmente um pai, habituado a observar o seu filho a brincar, verifica o elevado número de vezes em que o tema morte surge nas suas fantasias e brincadeiras. Esta é uma questão que, muito precocemente, causa curiosidade, interesse e medo às crianças, que a procuram explorar através da melhor ferramenta que possuem para conhecer o mundo: o brincar. Para uma criança, a perda de uma pessoa amada é um acontecimento que quase sempre gerador de angústia nos pais, que se confrontam, por um lado, com a sua própria dor e, por outro lado, com a ansiedade causada pelas dúvidas de como abordar e lidar com o acontecimento traumático junto do seu filho.

A perda, e o luto a ela associado, é uma experiência quase inevitável no percurso de vida de uma pessoa. Independentemente da faixa etária, o rol de sentimentos envolto na perda de alguém que se ama é uma experiência sempre dolorosa e difícil de suportar. Para uma criança, a perda de um ente significativo é quase sempre caracterizada por um turbilhão de sentimentos, para os quais não possui os mecanismos que permitam lidar com eles de forma eficaz, e muito menos entende-los. Daí a importância dos adultos que a acompanham, e estão consigo nestes momentos difíceis. Os pais, familiares, pessoas próximas, entre outros, podem ajudar, não só nos momentos próximos à cauda da dor, mas em todo o processo de luto por que a criança terá de passar.

Numa abordagem junto de uma criança que perde alguém significativo, é necessário encarar a tristeza e a dor que acompanham esse momento como parte integrante de todo o processo ligado à experiência de perda. Porém, convém assinalar que o luto não advém apenas da morte de alguém, podendo estar associado à perda de um animal de estimação, de uma separação ou divórcio dos pais, entre outras situações. De uma forma geral, o luto poderá caracterizar-se pelo conjunto de sentimentos e comportamentos ligados ao sofrimento causado por uma perda.

Sentir-se triste, num momento em que lida com uma perda, é natural, além de terapêutico. Porém, aos adultos, geralmente causa dor ver uma criança a sofrer mas, ao invés de se procurar tentar acabar com o sofrimento da criança (tarefa provavelmente inexequível), é importante acompanha-la na livre expressão dos seus sentimentos, compreendê-los e empatizar com estes, de modo a que sinta que é compreendida, e que a sua dor é aceite.

Prever ou antecipar o comportamento de uma criança após a notícia da perda é uma tarefa irrealizável. As reacções diferem de criança para criança, podendo o rol de comportamentos diferir desde a tristeza absoluta, até o parecer indiferente (apesar de não o ser), o que geralmente causa espanto a quem assiste. São comuns igualmente atitudes de isolamento e afastamento das outras pessoas, comportamentos agressivos, apatia, surgimento de sintomas psicossomáticos, desinvestimento académico, entre outras.


A notícia

Não existe um guião do modo correcto de transmitir a notícia da perda a uma criança. Será sempre um caso em que requererá flexibilidade, o uso de calma e muita paciência. Prepare-se para a possibilidade de ter de repetir, ou explicar de forma diferente, pois o que foi dito poderá ser questionado pela criança, ou até mesmo necessitar de aprofundar mais detalhadamente do que o que estava à espera, se a criança assim o requisitar. Há falta das palavras correctas para transmitir a notícia (o que caberá sempre aos adultos, pelo recurso à sua experiência, bom senso e intuição), pode-se procurar propiciar as melhores condições para o realizar. Nesse sentido, é aconselhável que quem fale com a criança lhe seja próxima (por exemplo, no caso de morte de um pai, poderá ser aconselhável a mãe falar com a criança). Mais que as palavras, conta que o que é dito o seja com amor, e esse amor sente-se junto das pessoas que nos são mais próximas. Num momento difícil como é a da morte, é fundamental que a criança se sinta apoiada e acompanhada pelos que mais ama. Abraços, beijos, mimos, quando sentidos e aceites pela criança, são sempre bem vindos.

Reconhece-se como componente facilitador em toda a relação com a criança, mas também nesta ocasião, a honestidade. Apesar de, como referido anteriormente, não existirem guias ou discursos pré-elaborados, pode-se com certeza afirmar que o mentir, ocultar ou utilizar eufemismos para a morte, não é recomendado. A criança, insegura por tudo o que está a passar, só poderá ser prejudicada pela desconfiança que resulta da descoberta de uma mentira por parte de quem a ama e lhe deveria transmitir segurança. Mais cedo ou mais tarde a criança saberá a verdade dos factos. Dessa forma, mais vale que o saiba de adultos significativos, que lhe podem dar segurança, conforto e amparo.

Os adultos, com a melhor das intenções, procuram proteger a criança , recorrendo compreensivelmente ao uso de expressões como “Está muito doente e foi para longe para se curar”, ou “Está a dormir para sempre”, que não a ajudam. Ao invés de tal, é aconselhável a utilização de uma abordagem sincera e directa. Não seja redundante, utilize a palavra morte, e explique à criança o sucedido, tendo sempre o cuidado de adequar o discurso à sua idade e maturidade.

A honestidade e sinceridade são necessárias não apenas na escolha das palavras com as quais é transmitida a notícia à criança, mas ao longo de todo o processo de luto. Com frequência, os adultos incorrem no erro de tentar proteger as crianças do seu sofrimento, e não se sentem livres pana os manifestar quando junto delas. O aconselhável será o oposto. Uma criança, ao se deparar com a morte de alguém, terá dificuldades em lidar com toda a panóplia de sentimentos que a invadem, e recorrerá aos seus modelos de referência para procurar aprender a lidar com sensações tão fortes. Deste modo, o facto dos adultos partilharem com os mais novos os seus sentimentos, a sua tristeza, o choro, permite-lhes sentirem-se mais confortáveis e aceites com o que sentem, e em partilhá-lo com quem os rodeia, não incorrendo na ideia de que esconder os seus sentimentos é o mais correcto a fazer, visto os adultos junto a si o realizarem. O chorar e a tristeza são salutares, e são o primeiro passo para lidar e reparar a dor.

Com a premissa de um ambiente de carinho e apoio criado à volta da criança, possibilita-se a criação de condições favoráveis para partilhar a sua dor, tristeza, zanga... Estas são reacções naturais, que variam muito de criança para criança. O importante é, além do adulto falar, dar espaço para que a criança fale, se manifeste, e sinta que tem quem a oiça e a acompanhe na sua dor.


Rituais fúnebres / Rituais de morte


Os rituais fúnebres e, particularizando os católicos que assumem o grosso da representação cultural e religiosa portuguesa, assumem a morte e o início do processo de luto como uma solenidade e parcimónia que acentua a dor e a perda definitiva. Perante este cenário, os adultos enfrentam dúvidas no que diz respeito à assistência ou não das crianças às cerimónias do funeral, bem como acerca da permissão para ver o corpo da pessoa falecida, o que constitui um factor causador de ansiedade para os adultos, que se questionam sobre a melhor opção a tomar.

Tanto o velório como o funeral possuem um papel fundamental na forma como uma pessoa se despede de alguém, e inicia o seu processo de luto. Este é um momento que ajuda à consciencialização de que uma pessoa morreu, e permite que, nestes primeiros momentos de luto, uma pessoa se sinta apoiada e acompanhada na sua dor, e na despedida de quem ama. Estas razões são válidas tanto para um adulto, como para uma criança.

Desta forma, é muito importante que a criança seja envolvida na tomada de decisão de assistir ou não ao funeral, bem como a de ver o morto ou não (salvaguardando sempre que o defunto não esteja em condições capazes de chocar a criança). O desejo da criança terá de ser sempre um factor a tomar em conta na hora da tomada de decisão da criança presenciar ou não o funeral e, nessa escolha, deverá sentir-se aceite e acompanhada pelos que ama. Durante a cerimónia, as crianças poderão querer assisti-la na sua totalidade ou, como por vezes ocorre, poderão saber que já assistiram o suficiente, e pedir para irem embora. Em qualquer das situações, é fundamental aceitar a sua vontade, e apoiá-la.

No caso da criança nunca ter assistido a um funeral, poderá não saber do que se trata. Nestas situações, é conveniente que os adultos expliquem os rituais da cerimónia, o que irá acontecer antes, durante e após esse momento, além de preparar as crianças para as diferentes respostas comportamentais e emocionais das outras pessoas presentes (explicar que poderá ver muitas pessoas a chorar, talvez gritar...). Mais uma vez, será aconselhável que as explicações sejam directas e simples, sem rodeios, e adequadas à maturidade da criança. Elas saberão procurar as informações que necessitam, podendo muitas vezes passar por questões práticas (quanto tempo demora, como é que vai o caixão, entre outras). Os adultos significativos devem preparar-se para responder às mais diferentes questões que a criança colocar, manifestando a abertura necessária para que ela se sinta confiante em colocá-las.


O processo de luto

É sempre difícil lidar com o luto. Independentemente da faixa etária, quer se seja adulto ou criança, a perda de um ser amado causa sempre dor. Visto ser a tristeza um sentimento comum nas diferentes faixas etárias face à morte, tal como nos adultos, será comum que as crianças passem por períodos de profunda tristeza. E, tal como os adultos, as crianças necessitarão de sentir-se apoiadas e acompanhadas pelos que ama, de forma a superar esta dor, que realmente poderá nunca desaparecer inteiramente.

A forma como a criança reage perante a morte não é muito distinta da forma como lida com outras perdas, a intensidade é que pode diferir. Apesar de não serem rígidas, e de cada criança ser “um mundo”, é possível, de forma geral, verificar-se a existência de fases distintas na forma como lidam com o luto:

1- Choque: prende-se com o conjunto de reacções iniciais fase ao conhecimento da perda do objecto significativo. O tipo de reacções varia muito de criança para criança, pelo que será de esperar o mais variado tipo de comportamentos, e aceitá-los enquanto naturais;

2- Protesto/Negação: esta fase é caracterizada pelo estado de dúvida e dificuldade em aceitar a perda. De forma inconsciente, este mecanismo de defesa faz com a criança não encare, ou procure não acreditar no sucedido;

3- Desorganização / Depressão: verifica-se quando se começa a encarar como real e irreversível o acontecimento traumático. Devido a tal, a criança sente-se frequentemente triste, poderá possuir sentimentos de culpa, ansiedade, medo e isolamento. O seu dia-a-dia poderá ser caracterizado pelas rápidas alterações de humor, bem como pela existência de comportamentos agressivos;

4- Reconstrução/Reorganização: após a dor da perda, a criança começa, aos poucos, a ajustar-se às mudanças que se sucederam na sua vida. Verifica-se um reajustamento na sua vida, no qual de certa forma aprende a lidar com a dor, mas não a viver para ela.


Apesar do luto não ser necessariamente caracterizado por um percurso linear, antes pelos diferentes avanços e retrocessos, e pelas diferenças de situação para situação, o conhecimento destas fases pode permitir uma melhor compreensão das diferentes reacções da criança, e assim uma melhor adaptação das respostas por parte dos adultos.

A forma como a criança suportará esta dor estará sempre ligada ao apoio que sente dos que lhe são próximos. Será esse apoio que lhe permitirá transmitir todos os sentimentos que a invadem, na procura de empatia, de compreensão e conforto. Daí o papel primordial da honestidade na relação. Aos adultos que acompanham a criança pede-se que manifestem também os seus sentimentos, que os partilhem com as crianças e que, através do seu exemplo, como modelos de relacionamento para a criança, a ajudem a encontrar estratégias para lidar com a sua dor.

A tristeza do luto funciona como um “alarme”, em que se pede aos que nos são mais próximos que se juntem, que apoiem, e que ajudem a ultrapassar a dor, em conjunto. Por parte da criança, o sentir que também ajuda os adultos a ultrapassar a sua dor, ajuda-o a sentir-se importante, e a acreditar que, em conjunto e tal como os adultos, conseguirá ultrapassar este período.

Durante o período de luto, os sentimentos predominantes nas crianças são a tristeza, a revolta e o medo. Porém, as suas reacções são frequentemente caracterizadas por alterações súbitas de humor. Uma criança poderá passar rapidamente de períodos de grande tristeza, para outros de apatia, de isolamento, bem como adoptar comportamentos que fazem parecer que o acontecimento traumático lhes é indiferente. Todos estes sentimentos e comportamentos são naturais, em concreto o brincar e o sorrir, e cabe aos adultos que a acompanham salvaguardarem-se de que ela se sente apoiada, e de que existem condições para que se expresse emocionalmente. Este é um processo natural, pelo que não será necessário pressionar a criança. Esta saberá quando é o momento ideal para o fazer, e procurará a(s) pessoas com quem o quer realizar. Com relativa frequência, a(s) pessoa(s) escolhidas podem não ser as mais próximas, poderá ser uma professora ou educadora. Respeite a escolha e o tempo da criança.

Acresce referir que o propósito do presente artigo não procura dar as respostas concretas, fórmulas ou constituir um manual de instruções para os pais/educadores. Ao invés de procurar essa tarefa destinada ao fracasso, procura, acima de tudo, ajudar os adultos que lidam com crianças que passam por situações de perda a sentirem-se mais confiantes de si e preparados para o momento em que se depararem com uma situação geradora de dor como a perda. Procura-se, acima de tudo, transmitir a consciência e a confiança de que os adultos possuem a capacidade de ajudar as crianças de forma eficaz a lidar com estas situações, sempre penosas. Recomenda-se apenas os ingredientes essenciais: o amor, aliado ao contributo insubstituível do tempo. Esse amor, quando baseado numa relação sólida e honesta entre um adulto e uma criança, é o principal instrumento para permitir à criança ultrapassar de forma eficaz o leque de emoções associados à perda, ajudando-a a reconciliar-se com a vida.

Dois mundos: O Divórcio dos pais

Numa sociedade caracterizada pelas constantes alterações a nível sociocultural, uma das mudanças mais visíveis prende-se com o galopante aumento da taxa de divórcios, que deixou de ser um acontecimento raro, possuidor duma carga social muito negativa, e tornou-se num facto comum e aceite nos nossos dias, existindo vários estudos que apontam para que, dos casamentos que ocorrem actualmente, perto de 50% resultarão em divórcio.

As explicações para este fenómeno são várias, podendo passar por um menor peso da Igreja e dos seus valores na sociedade actual, o desejo de felicidade e realização pessoal sobreposto ao respeito pelas tradicionais regras sociais, um regime imediatista de todo o tipo de consumo, entre outras causas. Mais do que analisar as inúmeras razões que motivam um casal para a tomada de decisão de viverem separados, é importante reflectir que, com frequência, quem mais sofre com todo o processo é quem não tem qualquer responsabilidade por ele: os filhos.

Este é inevitavelmente um momento difícil para uma criança, provavelmente até mesmo o mais difícil pelo qual terá de passar na sua infância. Porém, os pais têm um papel fundamental no processo de adaptação à nova realidade e na forma como elabora a sua perda. Não poderão evitar que a criança sofra, mas poderão minimizar esse sofrimento.

A separação

Para potenciar esse processo de acompanhamento e ajuda a uma criança na fase do divórcio, é necessário encará-lo como um acontecimento duradouro, como algo que surge de um casamento infeliz, que requer a separação física, e se prolonga pelo resto da vida, sendo necessário adoptar uma diferente organização e dinâmica familiar. Este é um processo muitas vezes longo, que envolve uma complexa cadeia de acontecimentos que se repercutem por muitos anos.

Um divórcio altera todo o conceito de família que a criança possuía, obrigando-a a confrontar-se com a inevitável saída de um dos progenitores de casa e, na generalidade das crianças, com a perda do contacto diário com o mesmo. Este é sempre um acontecimento doloroso para uma criança, que a marcará. O modo como um filho vivência esse período, bem como os sentimentos com que é confrontada, variam de criança para criança, consoante a sua personalidade, a dos pais, o seu género, a sua e idade e maturidade, entre vários outros factores.

A panóplia de sentimentos que a criança poderá sentir é enorme, sendo muito frequente sentir angústia, medo de perda, de abandono, culpa, raiva, negação, tristeza e ansiedade. Quando um progenitor abandona o parceiro, é comum a criança também se sentir abandonada, e com medo de perder a ligação com o elemento que sai de casa. A frequente batalha por parte das crianças para que os pais não se separem (realidade que a criança procura evitar a todo o custo) suscita sentimentos de impotência, bem como a apreensão de que a sua opinião, os seus desejos não são significativos, e que não é capaz de controlar algo tão importante para a sua vida.

Pré-divórcio

As crianças percepcionam muito mais do que podemos imaginar e, dependendo da sua idade, é comum que sintam quando o casamento dos pais está em crise. Apesar dessa percepção, é natural que possuam receio em fazer questões, provavelmente com medo do que possam ouvir. Não obstante esse silêncio, desde o momento em que os pais tomam a decisão irreversível de se divorciarem, é importante prepararem os seus filhos para o que se suceder. Desta forma os pais, em conjunto e, de forma sensata e calma, devem explicar aos filhos as alterações que irão ocorrer. O facto de estarem todos juntos permite à criança encarar esta situação como uma decisão mútua, acordada por ambos os pais, de forma madura e racional.

Com o cuidado de adequar a linguagem à idade e maturidade do filho, é importante explicar de forma clara toda a situação. Na maioria destas, as crianças não necessitam de relatos muito elaborados. Basta explicitar de forma simples o que é um divórcio, as mudanças que ocorrerão na vida dos pais e na dos filhos, em traços gerais, as razões do divórcio (evitando pormenores ligados a questões sexuais ou actos de infidelidade, caso estes ocorram). Aos filhos, poderá ser difícil compreender e aceitar essa nova realidade. Cabe aos pais, sempre que necessário, e com a devida paciência, voltar a repetir o anteriormente explicado, por outras palavras, as vezes que a criança sentir necessidade. Ela saberá transmitir quando tiver assimilado a nova informação, provavelmente elaborando uma nova questão.

É natural o surgimento de sentimentos de culpa, por parte das crianças, por se percepcionarem causadoras da separação dos progenitores. Aos pais, cabe explicar aos filhos que estes não são culpados da situação, antes pelo contrário, as crianças são o melhor que o casamento lhes trouxe. Importa esclarecer que já existiu amor entre os pais, tal deixou de se verificar, mas o amor pelos filhos irá manter-se para sempre, tal é impossível de mudar. Desta forma, além de estarmos a ajudar a criança a lidar com os sentimentos de culpa, estaremos a validar e a combater o medo de perder o amor dos seus pais, em especial o de quem sai de casa.

Ao se deparar com a notícia, o filho poderá ter dificuldades em aceitá-la como algo definitivo. É conveniente que os pais manifestem a firmeza e a irreversibilidade da decisão e, quando já planeada, informá-la da data concreta de saída de casa do pai/mãe. Mais uma vez, manifestem ao filho que não está no poder dela impedir essa separação, nem depende de si o reatamento da relação, é uma decisão dos pais, pela qual ele não é minimamente responsável.

É comum o casal procurar esconder os seus sentimentos, não só nesta, mas na maioria das situações penosas por que passam. Esse comportamento é legítimo e compreensível, pois parte do desejo de querer poupar às crianças a dor dos pais. Porém, a criança é indissociável da família e, tal como a maioria dos mecanismos que adquire, ela aprende a lidar com os sentimentos vivenciando-os e, preferencialmente, junto dos seus pais, que são os seus modelos. O acto de partilharem os seus transmite-lhes a ideia de não serem os únicos a sofrerem com a situação, permitindo-lhes sentirem-se menos isolados e mais apoiados. Mais uma vez se pede honestidade em todo este processo, e tal verifica-se igualmente ao nível dos sentimentos, em que pais e filhos devem poder expressar livremente a tristeza que sentem, sendo esse o primeiro passo para o processo de adaptação à nova realidade.


Bilhete de Identidade: PAIS

O divórcio dos pais acarreta sempre sofrimento. Não obstante toda a dor causada, a nível emocional, todo o processo antes e depois da separação é mais relevante que o divórcio em si. Vários estudos demonstram que os filhos submetidos a relações conflituosas entre os pais, seja através de agressões verbais ou físicas constantes, ou mesmo casamentos caracterizados pela inexistência de comunicação, diálogo, centradas no silêncio, proporcionam com maior frequência crianças com problemas de comportamento e de socialização do que as cujos pais se divorciaram.

Em contrapartida, diferentes estudos apontam para que a existência de um bom diálogo entre os pais após o divórcio é um dos melhores predictores de ajustamento psicológico das crianças fruto de pais divorciados. Ou seja, só por si, o divórcio não é sinónimo de problemas emocionais nas crianças mas, todavia, é necessária a consciência que a parentalidade não termina (ou diminui) após o divórcio, verificando-se a necessidade de continuidade e estabilidade das relações afectivas com ambos os pais, e um adequado entendimento e respeito entre ambos os progenitores.


Pós-separação

Um homem e uma mulher podem divorciar-se um do outro, mas o mesmo não pode acontecer com os filhos. Separar o papel de marido e mulher do de pai/mãe é uma tarefa que os pais terão de encarar como decisiva na forma como a criança vivência o divórcio dos pais. Esse é um papel para a vida, e que deve ser aceite e cumprido com responsabilidade e amor por ambos os progenitores, antes, durante e após o processo de divórcio.

Muito embora todos os prejuízos causados por um divórcio, uma família só com a presença da mãe ou do pai pode facultar um ambiente mais saudável para o desenvolvimento de uma criança, do que a coexistência numa família em permanentes conflitos, caracterizada pala falta de comunicação e de amor.

A ruptura da família é encarada como um problema de difícil resolução para a maioria dos filhos, mesmo tendo em conta que geralmente se apresenta como a única solução para por termo a todo um cenário de conflitos e dor. Os filhos, envoltos em todo o processo, necessitam, por parte dos pais, de serem salvaguardados de todos os conflitos, discussões e disputas tão frequentemente associadas a este período.

A criança necessita de elaborar a sua dor, de adaptar-se a todas as alterações na sua realidade. Para que todo esse processo decorra de forma saudável, é preciso sentir que, apesar do divórcio, o seu amor pelos pais, e o destes por si não será posto em causa. Ela poderá gostar sempre dos dois e nunca terá de escolher entre eles, independentemente do progenitor que ficou com a sua custódia, e daquele que saiu de casa.

Na maioria das acções de divórcio, a custódia dos filhos é atribuída à mãe. Nestes casos, ou quando o inverso ocorre, é necessária a consciência que as crianças necessitam de contactos frequentes e regulares com ambos os progenitores. Para o seu desenvolvimento psicológico e social, as crianças precisam de possuir uma boa imagem do pai e da mãe, necessitam duma relação saudável, estável e positiva com ambos os progenitores.

Manutenção das rotinas

Tanto quanto possível, as rotinas diárias deverão ser mantidas (hora de acordar, deitar, ir para a escola, refeições, etc.). Este procedimento permite minimizar a sensação de intranquilidade e turbulência que caracteriza este período, consequência de todo o desmoronar da imagem familiar que a criança possuía. Estes actividade e rotinas permitem à criança a sensação de alguma normalidade no seu ambiente, transmitindo-lhes segurança e conforto.

É importante que as crianças se mantenham a frequentar a mesma escola mas, se tal não for possível, a manutenção das redes de contacto que possuía antes do divórcio (amigos, colegas de escola e outras actividades extracurriculares, etc.) é uma importante forma de obterem apoio de pessoas significativas, bem como possibilitar divertirem-se e esquecerem por momentos o momento difícil por que passam. No mesmo sentido, a família alargada (avós, tios, primos) poderá ser uma forte fonte de apoio, compreensão e, em muitos casos, oferecem modelos de organização familiar, em que a criança pode procurar compreensão e estabilidade.

Aos pais

Sumariamente, ao longo deste artigo, procurou-se realizar uma reflexão sobre a forma como as crianças sentem e vivenciam a separação dos pais e as suas repercussões psicológicas. Mas, fundamentalmente, procurou-se que, através duma maior consciencialização do sofrimento dos prejuízos emocionais a que as crianças estão sujeitas, os pais aceitem a responsabilidade do seu papel, e se consciencializarem de que é necessário esforço e discernimento, para colocar os interesses dos seus filhos acima dos seus próprios. Pede-se-lhes que assumam a parentalidade, e que desempenhem esse papel para a vida.

Os medos da criança

O medo é uma emoção básica, que coloca o nosso organismo em sobre-alerta e o prepara para fugir e/ou defender-se perante a percepção de perigo. A generalidade das crianças passará por algum sintoma de medo durante a sua infância, em especial as raparigas que, no entanto, têm uma maior facilidade em ultrapassá-lo. Esta maior facilidade estará, provavelmente, ligada a uma maior capacidade em exteriorizar sentimentos e emoções que, em consonância com a ajuda dos pais, lhes possibilita uma melhor compreensão dos seus sentimentos, e leva a uma procura mais eficaz de estratégias para lidar com os mesmos.

Desta forma, ao falarmos de medos, devemos encará-los enquanto emoção saudável, com uma função adaptativa: alertar para os perigos que rodeiam.

Os medos estão ligados a etapas específicas do desenvolvimento. Apesar de serem tarefas desenvolvimentais que terão de ultrapassar, o modo e a intensidade com que os sentem varia de criança para criança, de acordo com a sua personalidade, a dos pais, entre outros factores. Com o crescimento e correspondente maturação cognitiva e emocional, a criança, com a colaboração dos pais, vai encontrando estratégias eficazes para lidar com os medos, pelo que, na sua maioria, acabam por desaparecer.

Nos primeiros tempos de vida duma criança, o seu medo está muito ligado ao receio de perda do seu cuidador, a sua figura de referência (geralmente a mãe), denominando-se de medo ou ansiedade de separação. Por volta dos 7/8 meses de vida, os bebés adquirem a capacidade de distinguir os rostos familiares, em especial o da sua mãe, em contraste com os que desconhece. Surge aqui uma fase denominada de Angústia do Estranho, caracterizada pela manifestação, por parte da criança, de medo ou ansiedade perante a presença de estranhos, ou pessoas com quem tenha menos contacto. Nesta fase, as crianças ainda não adquiriram uma competência, a da "permanência do objecto", que consiste no saber que, quando algo (ou alguém) sai do seu campo de visão, pode voltar. Para o bebé, quando tal acontece, ele sente medo por esse objecto deixar de existir.

A partir dos dois anos, é frequente a criança começar a ter medo de ser abandonada pelos pais e, consequentemente, de qualquer separação que possa ocorrer. É igualmente nesta fase que se verifica um aumento do medo dos animais, que costuma perdurar até por volta dos quatro anos.

A imaginação assume um papel preponderante nos medos das crianças e é, com o aproximar dos três anos (altura em que a imaginação se torna mais rica e atinge um maior grau de desenvolvimento) que é potenciado o surgimento do medo do escuro, dos monstros, fantasmas, ladrões, entre outros. Este é um dos medos mais comuns entre as crianças, sendo transversal a várias culturas e civilizações. Geralmente surge entre o terceiro e o sexto ano de vida da criança, e é habitualmente ultrapassado até à entrada para a escola. Ocorre com especial incidência na hora de dormir, momento em que a criança se sente "desprotegida", pois confronta-se com a separação física dos pais, bem como com a segurança que esta presença lhe oferece.

Com o atingir dos seis anos de idade, a criança atinge uma fase de desenvolvimento que lhe permite encarar a morte como algo irreversível, perdendo o seu lado fantasioso e assumindo uma vertente mais concreta, o que lhe provoca medo da sua própria morte, bem como a das suas figuras de referência. Verifica-se aqui uma transição do medo de separação para o medo de morte. Aí, apresenta uma associação de morte a coisas concretas, como a uma pessoa, a caixões, cemitérios, etc.

Paralelamente à entrada para a escola, e ao longo do seu curso, surgem medos ligados a esta nova etapa da sua vida, bem como aos desafios a ela associados. O medo de se expor, ter de falar nas aulas, ir ao quadro, as histórias contadas de agressão dos mais velhos, entre outros, causam apreensão às crianças. Aqui os medos estão muito ligados à identidade da criança, à sua auto-estima e sentimentos de insegurança. Poderá surgir o receio de ser diferente, ser gozado pelos outros.

Esta insegurança e medo assumem um papel marcante num espaço como a escola, pois estes sentimentos poderão transmitir à criança a sensação de impotência perante a resolução de dificuldades que até pode percepcionar como não perigosas, mas que apenas não se sente capaz de as ultrapassar. Nestes casos, é essencial que os pais e/ou educadores saibam escutar a criança, desmistificar esses sentimentos e, sobretudo, ouvi-las e ajudá-las no sentido de encontrar estratégias eficazes para a resolução dos seus medos.


OS PAIS PODEM AJUDAR

É impossível os pais evitarem o sentimento de medo por parte dos seus filhos (o que também não seria salutar). Ao invés disso, podem ter um papel preponderante no auxílio da procura de estratégias que permitam à criança lidar convenientemente com os obstáculos com que é confrontada e lhe permitam ultrapassar o medo.

Os pais ao se depararem com os medos dos seus filhos, naturalmente podem manifestar confusão e algum desconhecimento sobre a forma mais adequada para lidar com a situação. Antecedente à procura de estratégias para ultrapassar esses medos, é fundamental que os pais validem e respeitem os sentimentos dos filhos, e tal passa por nunca os ridicularizar ou desvalorizar. Os medos são fruto do processo de desenvolvimento da criança, o que acarreta novos desafios. São um factor positivo, e é dessa forma que deverão ser encarados, apesar do filho ainda não ter atingido um nível de maturação que lhe permita enfrentar esse medo da forma mais eficaz.

O bem estar emocional da criança é favorecido pela existência de cumplicidade com os pais. A criança ao ter medo, enfrenta o anseio de não o conseguir ultrapassar, bem como o de ser a única que passou por este sentimento. O acto dos pais relatarem à criança que também eles passaram por situações semelhantes, inclusive uma similar à que o filho sente, fá-las sentir apoiadas e aceites, transmite-lhes a possibilidade de vencerem os seus medos e serem "grandes e fortes" como os seus pais. Procure explorar com os seus filhos formas de resolver as situações, podendo também dar exemplos de como conseguiu resolver os seus próprios medos.

A promoção do diálogo entre pais e filhos é uma das melhores "ferramentas" que se pode transmitir aos filhos. Essa abertura ao diálogo, permite deixar uma "janela aberta", o que facilitará à criança a procura dos pais (ou outras figuras de referência) quando se sentir ameaçada, ou estiver a lidar com sentimentos perante os quais sente dificuldades em lidar. Só o acto da criança falar e explicar os seus medos aos pais, serve de alívio e, além de promover uma maior aproximação entre os pais e os filhos, é um importante passo na procura conjunta de soluções para os problemas.

Uma estratégia universal perante uma situação percepcionada como perigosa é a fuga ou o evitamento. Torna-se importante a consciencialização que, só através do enfrentar dos desafios, é que conseguimos ultrapassá-los. Recorrendo à aceitação e validação dos sentimentos dos filhos, cabe aos pais ajudarem a criança na procura da forma mais eficaz de resolução do problema, ao invés da fuga, frequentemente a primeira resposta à questão ansiogénica. Os medos, sendo marcadores do desenvolvimento da criança, funcionam como tarefas desenvolvimentais, às quais cabe à criança ultrapassar, resultando na promoção da autonomia da criança, no seu desenvolvimento emocional, que consequentemente se repercute ao nível do seu auto-conceito. O enfrentar atempado dos medos evita que, a longo prazo, estes possam possuir uma dimensão patológica resultante em fobias.


IDEIAS ÚTEIS

Ajudar a vencer o medo do escuro:

Reconheça e legitime o medo da criança. Tente compreendê-lo e, em conjunto, explorar a causa dos seus medos, bem como formas de os ultrapassar;

Procure transformar o momento de deitar numa ocasião de prazer e de relaxamento. Conte-lhe histórias ao adormecer;

A existência de rituais ajudam a criança a organizar-se e a orientar-se. Uma hora certa para deitar, e a criação dum ritual de preparação para o momento de deitar, como o beber leite, vestir o pijama ou lavar os dentes podem ser facilitadores. O importante é a criança interiorizar que um determinado acto precede o momento de ir deitar;

Mostre cumplicidade com os seus filhos, falando-lhes dos seus medos quando era criança, e até mesmo de alguns que sente em adulto (tendo em conta a adequação dos conteúdos à idade da criança);

Deixar a porta aberta do quarto pode ser um bom auxílio;

A existência duma luz de presença é um "amigo" maravilhoso. Se a idade da criança o permitir, ter junto a si uma lanterna que pode acender quando sentir medo. Este medo pode ajudar a criança a sentir que possui uma "arma" para se proteger;

A possibilidade da criança ter na sua cama um boneco ou brinquedo que goste muito pode contribuir para que se sinta mais segura e confiante;

O medo do escuro não se enfrenta no mundo do concreto, por isso torna-se desnecessário dizer-lhe que papões não existem. Este é um jogo que se joga ao nível da imaginação, e por isso os pais terão que participar a esse nível. Ajude a criança a procurar os monstros que julga escondidos no armário, assuste os fantasmas com uma lanterna, conte-lhe histórias em que os heróis venceram os monstros, use a imaginação e a fantasia...

A importância do brincar no desenvolvimento da criança

A Criança aprende a Brincar

O brincar é uma das formas mais comuns do comportamento humano, principalmente durante a infância. Infelizmente, até há relativamente pouco tempo, o brincar era desvalorizado e menosprezado, destituído de valor a nível educativo. Com o evoluir dos tempos, atravessa-se uma mudança na forma como se percepciona o brincar, e a sua importância no processo de desenvolvimento duma criança.

Actualmente, verifica-se uma maior preocupação com a formação das crianças: tanto pais, como educadores, procuram a melhor forma de as tornarem responsáveis, equilibradas, etc, contudo, não é raro esquecerem-se que o brincar pode ser uma "ferramenta", por excelência, para que a criança desenvolva essas qualidades.
Mais do que uma "ferramenta", o brincar é uma condição essencial para o desenvolvimento da criança. Através do brincar, ela pode desenvolver capacidades importantes como a atenção, a memória, a imitação, a imaginação. Ao brincar, exploram e reflectem sobre a realidade e a cultura na qual estão inseridas, interiorizando-as e, ao mesmo tempo, questionando as regras e papéis sociais. O brincar potencia o desenvolvimento, já que assim aprende a conhecer, aprende a fazer, aprende a conviver e, sobretudo, aprende a ser. Para além de estimular a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção.

Através da brincadeira, as crianças ultrapassam a realidade, transformando-a através da imaginação. Desta forma, expressam o que teriam dificuldades em realizar através do uso de palavras. Os jogos das criança não são apenas recordações do que vêem os adultos fazerem. Elas nunca reproduzem de forma absolutamente igual ao sucedido na realidade. O que sucede é uma transformação criadora do percepcionado para a formação de uma nova realidade que responda às exigências e inclinações da própria criança, ou seja, uma reinvenção da realidade.
O brincar apresenta características diferentes de acordo com o desenvolvimento das estruturas mentais, existindo, segundo Piaget, 3 etapas fundamentais:

Dos 0 aos 2 anos de idade- Aqui ocorrem os chamados Jogos de Exercício. Neste período, a criança vai adquirindo competências motoras e aumentando a sua autonomia. Vai preferindo o chão ao berço, demonstrando alegria nas tentativas de imitação da fala... vai revelando prazer ao nível da descoberta do seu corpo através dos sentidos.

Elabora então as suas brincadeiras à volta da exploração de objectos através dos sentidos, da acção motora, e da manipulação - características dos "jogos de manipulação". Estes jogos oferecem sentimentos importantes de poder e eficácia, bem como fortalecem a auto-estima. Deste modo, constituem peças fundamentais para o desenvolvimento global da criança.
Entre os 2 e os seis/sete anos de idade- A simbologia surge com um papel fundamental nas brincadeiras, como são exemplo o "faz de conta", as histórias, os fantoches, o desenho, o brincar com os objectos atribuindo-lhes outros significados, etc. Os jogos simbólicos são possíveis dado que, nesta fase, a criança já é capaz de produzir imagens mentais. A linguagem falada permite-lhe o uso de símbolos para substituir objectos.

O jogo simbólico oferece à criança a compreensão e a aprendizagem dos papéis sociais que fazem parte da sua cultura (papel de pai, de mãe, filho, médico, etc.).

A partir dos sete anos de idade – Por fim, as brincadeiras e jogos com regras tornam-se cruciais para o desenvolvimento de estratégias de tomada de decisões. Através da brincadeira, a criança aprende a seguir regras, experimenta formas de comportamento e socializa, descobrindo o mundo à sua volta. No brincar com outras crianças, elas encontram os seus pares e interagem socialmente, descobrindo desta forma que não são os únicos sujeitos da acção e que, para alcançarem os seus objectivos, deverão considerar o facto de que os outros também possuem objectivos próprios que querem satisfazer.

Nos jogos com regras, os processos originados e/ou desenvolvidos são outros, uma vez que nestes o controlo do comportamento impulsivo é diferente e necessário. É a partir das características específicas de cada jogo que a criança desenvolve as suas competências para adaptar o seu comportamento, distanciando-o cada vez mais da impulsividade. Nestes jogos, os objectivos são dados de uma forma clara, devido à sua própria estrutura, o que exige e permite, por parte da criança, um avanço na capacidade de pensar e reflectir sobre as suas acções, o que lhe permite uma auto-avaliação do seu comportamento moral, das suas habilidades e dos seus progressos.

Brinquedo

O brinquedo representa uma oportunidade de desenvolvimento. Ele traduz o real para a "realidade infantil", suavizando o impacto provocado pelo tamanho e força dos adultos, diminuindo o sentimento de impotência da criança. Os problemas que surgem na manipulação dos brinquedos, jogos, etc, fazem a criança crescer através da procura de soluções e alternativas. Por exemplo, um boneco pode ser um bom companheiro e aliado; uma bola, um promotor do desenvolvimento motor; um puzzle, estimular o desenvolvimento cognitivo; etc.

O desempenho psicomotor da criança enquanto brinca, por exemplo, a correr atrás duma bola, alcança níveis que só mesmo a motivação intrínseca consegue. Simultaneamente, estimula-se a atenção, a concentração e a imaginação e, por consequência, contribui para que fique mais calma, relaxada e aprenda a pensar, estimulando a sua inteligência e autonomia.


Papel dos Adultos

O adulto pode (e deve) estimular a imaginação das crianças, despertando ideias, questionando-as de forma a que elas próprias procurem soluções para os problemas que surjam. Além disso, brincar com elas, procurando estimular as crianças e servir de modelo, ajuda-as a crescer.

O brincar com alguém reforça os laços afectivos. Um adulto, ao brincar com uma criança, está-lhe a fazer uma demonstração do seu amor. A participação do adulto na brincadeira eleva o nível de interesse, enriquece e estimula a imaginação das crianças.

Conclusão

O brincar não significa apenas recrear-se, antes pelo contrário, é a forma mais completa que a criança tem de comunicar consigo mesma e com o mundo.

A criança precisa ter tempo e espaço para brincar. É importante proporcionar um ambiente rico para a brincadeira e estimular a actividade lúdica no ambiente familiar e escolar, lembrando que rico não quer dizer ter brinquedos caros, mas fazer com que elas explorem as diferentes linguagens que a brincadeira possibilita (musical, corporal, gestual, escrita), fazendo com que desenvolvam a sua criatividade e imaginação.

É a brincar que aprende o que mais ninguém lhe pode ensinar. É dessa forma que ela se estrutura e conhece a realidade. Além de estar a conhecer o mundo, está-se a conhecer a si mesma. Ela descobre, compreende o papel dos adultos, aprende a comportar-se e a sentir-se como eles.

O acto de brincar pode incorporar valores morais e culturais, em que as actividades podem promover a auto-imagem, a auto-estima, a cooperação, já que o lúdico conduz à imaginação, fantasia, criatividade e à aquisição dum sentido crítico, entre outros aspectos que ajudam a moldar as suas vidas, como crianças e, futuramente, como adultos.

É através da actividade lúdica que a criança se prepara para a vida, assimilando a cultura do meio em que vive, integrando-se nele, adaptando-se às condições que o mundo lhe oferece e aprendendo a competir, cooperar com os seus semelhantes: a conviver como um ser social.

Relaxar para crescer

Segunda-feira: toque atrás de toque, elas correm de sala para sala. Chegado o fim das aulas, agarram na mochila, já a caminho do automóvel e disparam rumo à Natação, Ténis, Judo ou Inglês, engolindo um lanche para aconchegar...preparam-se à pressa, que o tempo voa! Finda a actividade, arrancam para casa a todo o vapor, mergulham no banho, jantam e saltam para a cama (isto nos dias calmos, nos quais não há trabalhos de casa para realizar). Amanhã será terça-feira...


O ritmo exasperante a que habituamos as nossas crianças, de forma a corresponder às exigências crescentes da sociedade imediatista em que vivemos, traduz-se em horários a full-time, em que são equiparadas a ‘mini-adultos’. O desejo natural dos pais de as dotar e capacitar de mais recursos e “ferramentas”, para enfrentar os desafios, representa um acréscimo de oportunidades para o desenvolvimento da criança. Contudo, importa considerar que a criança precisa de momentos para relaxar.


A desvalorização dos momentos de relaxamento, por parte dos pais, associada à adopção do papel de ‘mini-adulto’ pela criança; a ocorrência de mudanças familiares; situações de crise; problemas na escola entre outros, podem originar estresse, dificuldades em gerir a ansiedade, perturbações do sono, alterações do comportamento e mesmo, do desempenho académico desta.



STOP: MOMENTO PARA RELAXAR

As técnicas de relaxamento são utilizadas na maioria das intervenções psicológicas a problemas que manifestam sintomas de ansiedade. De igual modo, o relaxamento pode ser promotor do desenvolvimento da criança e, simultaneamente, revelar-se um factor preventivo de eventuais complicações como as já mencionadas. Para tal, os pais podem incrementar esta prática no quotidiano da criança.


Enquanto agentes modeladores do comportamento da criança, compete aos pais apoiar e orientar o processo de parar para sentir, pensar, consciencializar-se, enfim relaxar. À medida que os pais lhe ensinam modos de relaxar, a criança interioriza-os e aprende a considerá-los um recurso ao longo da vida.


O relaxamento permite à criança renovar e ampliar, mental e fisicamente, a sua energia. Ajuda-a a expandir o conhecimento de si e dos outros, aumenta a sua auto-estima e favorece a aprendizagem de modos de actuar perante situações geradoras de estresse. Desta forma, competências essenciais como; atenção, memória, auto-regulação, criatividade, resolução de problemas, consciência de si, do seu corpo, das suas sensações e emoções, capacidade de escuta e análise, entre outras, são aprendidas e/ou potenciadas, favorecendo o seu desempenho em ocasiões futuras, nos mais variados contextos. Isto é, desenvolve novos recursos emocionais e cognitivos, através do ensaio de diferentes respostas exploratórias às dificuldades sentidas.



SAIBA AJUDAR

Existem diversas práticas de relaxamento que podem ser efectuadas de forma lúdica e apelativa entre pais e filhos, sem grande complexidade. Eis as algumas ideias:


Ensine-o a respirar
O respirar de forma profunda e compassada promove uma diminuição da activação fisiológica e, consequente, distensão muscular. Use um balão ou um apito para tornar a tarefa mais aliciante. No caso de optar por um apito, a respiração deve ser lenta a ponto deste não emitir qualquer som.



Usar a distracção
Existem actividades que, só por si, podem induzir estados de relaxamento. Tais como, a leitura de um livro ou revista, pintar, escrever, andar de bicicleta, dançar, etc. Além de distrair a criança quando está tensa ajuda-a a descentrar-se das suas preocupações.


Aliviar a tensão muscular
Peça à criança que se deite confortavelmente e feche os olhos. De seguida, ensine-a a concentrar e anular a tensão numa determinada parte do corpo, percorrendo sucessivamente todas as partes. Recorra a instruções como, “Faz força no braço direito.”, “Descansa-o.” Este exercício possibilita uma descarga das tensões acumuladas.


O poder do toque
O toque das pessoas significativas reduz os índices de ansiedade e transmite uma sensação de segurança e bem-estar. Um abraço, beijo, carícia, massagem, cócegas suaves, exemplificam contactos físicos que ajudam a criança a relaxar.
Contudo, este contacto físico não agrada a todas as crianças. Assim sendo, os pais podem deixar que seja ela a tocar-lhes. Por exemplo, permitindo que ela os penteie, massaje, faça cócegas, etc.


Utilizar a música
Coloque uma música calma, ainda que de fundo, o que incita um estado de relaxamento, quer aos pais, quer aos filhos. Esta prática minimiza o estresse ligado às rotinas diárias.


Falar de emoções
Por vezes, a criança sente medo e constrangimento em expor abertamente as suas emoções e sentimentos, por se considerar diferente, o que lhe pode causar ansiedade, tristeza, zanga, etc. Proporcionar momentos de diálogo espontâneo, com a criança, acerca dos sentimentos e emoções de ambos, permite-lhe sentir alívio e aceitação, por parte dos outros.
Elabore verbalizações que expressem claramente emoções como, por exemplo, “Sentes-te preocupado com o teste de amanhã?”, “Por vezes, quando tinha a tua idade, também me sentia nervoso.”, “Ficas-te com medo por o pai estar doente?”


Descontrair pela visualização
Esta prática pode revelar-se muito útil na hora da criança ir dormir.
Mais uma vez, a criança deve deitar-se confortavelmente e fechar os olhos. De seguida, peça-lhe para se visualizar num lugar do agrado da mesma, de preferência tranquilo e familiar, como a praia ou um campo. Posteriormente, sugira-lhe que imagine sensações características desse lugar (por exemplo, ouvir o som do mar ou do vento nas árvores, sentir o sabor de um gelado). Pode ser praticada em família, sem fronteiras para a imaginação.


Relaxar a brincar
Vestir a pele de um herói, construir um castelo, ser médico, professora ou pirata, fazer um puzzle, jogar à bola ou à apanhada... Brinque com a criança.
Brincar é o meio privilegiado desta explorar, conhecer e comunicar as suas vivências interiores. Ajuda-a a relaxar e a lidar com medos e angústias próprias da sua idade, estimulando a imaginação e criatividade.



Independentemente das práticas utilizadas, a premissa é relaxar. Páre, relaxe e divirta-se com o seu filho.


Realizado por Lúcia Fernandes (Psicóloga e Psicoterapeuta) e Bruno Gomes (Psicólogo e Psicoterapeuta)

Como ajudar o seu filho a ler

A nível académico, a aprendizagem da leitura surge como um marco fundamental no percurso da criança. Esta aprendizagem contribui para o processo de autonomia da criança, ajuda-a a obter melhores resultados académicos, e a possuir uma auto-estima mais elevada.

Os pais, bem como outros adultos de referência, possuêm um papel fundamental nessa aprendizagem, desde os primeiros meses de vida. De seguida, ficam algumas ideias simples, que podem estimular a criança para esta descoberta fundamental:

- Ler, com frequência, para o seu filho. Esta é uma actividade que pode ser realizada desde os primeiros tempos de vida duma criança. Apesar de, no princípio, a criança não compreender, o objectivo é que ela fique familiarizada com o som da sua voz, e se acostume a ver e a tocar em livros;

- Conte histórias, incentivando a criança a realizar perguntas e a falar da história que acabou de ouvir. Procure associá-la a acontecimentos do dia a dia do seu filho;

- É importante que os livros apresentados à criança adequem-se à sua maturidade. Nos primeiros anos de vida, livros ilustrados com figuras apelativas e pouco texto são os mais recomendados.

- Tenha sempre disponíveis, e de fácil acesso, materiais de pintura e de escrita;

- Recomenda-se a aquisição dum dicionário infantil, de preferência daqueles que possuêm imagens ao lado das palavras. Procure desenvolver o hábito de pesquisa, como o de, ao brincar com a criança, provocá-la dizendo frases tais como: "Vamos descobrir o que isto significa?";

- Visite com frequência bibliotecas e livrarias;

- Por último, mas de extrema importância, dê o exemplo. As crianças desejam e procuram identificar-se e imitar os seus pais. Leia, leiam juntos. Desse modo, estão juntos a explorar e a relacionar-se com o livro e a leitura.

Como lidar com as birras?

Uma criança aos berros no chão do supermercado... A gritar que não quer jantar... Raro é o pai que nunca teve de lidar com uma birra do filho. Entre os 18 meses e os 3/4 anos, quase todas as crianças passam, com menor ou maior intensidade, por momentos destes, o que deixa frequentemente os pais desarmados, sem saber como reagir.

A boa notícia é que tal situação é um sinal de crescimento, e é característica duma fase em que a criança procura afirmar-se, com sentimentos e vontades próprias.

Apesar de ser difícil lidar com este tipo de comportamentos, eles podem tornar-se em óptimas oportunidades de ajudar a criança a aprender a conviver com sentimentos como a frustração e a zanga, e a desenvolver a capacidade de auto-controlo. A tarefa dos pais é ensinar à criança outras formas de expressar as suas necessidades, e a aceitar o facto de que nem sempre lhe fazem a vontade.

Nestes momentos, é necessário que os pais não tenham receio de dizer não, explicando a razão de o fazerem. Cabe-lhes ensinar aos filhos que as birras não os farão mudar a sua opinião, bem como que o seu amor pelo filho não se alterará. Se mesmo assim não resultar, procure distraí-lo ou não lhe dê atenção por alguns minutos. Muitas birras terminam quando deixam de ter público e, com os pais por perto, tornam-se mais difíceis de controlar.

Após a criança controlar-se, felicite-a por ter optado pelo bom comportamento, e procure falar com ela sobre alternativas de conduta mais eficazes que as birras.

Só com firmeza as crianças aprendem a respeitar as regras propostas pelos pais. Aprender que tudo tem limites, abre caminho para um convívio saudável com os outros e para uma boa integração na sociedade.

O objectivo é a autodisciplina, porém, não pense que esta será a última birra...

Agressividade ou falta de limites?

A sociedade actual exige cada vez mais dos pais: em termos de disponibilidade prestada; dos cuidados necessários; da difícil gestão de situações e problemas; o boom de informação à qual as crianças têm acesso; um regime escolar mais permissivo instalado; entre outros. Desta extrema exigência face à multiplicidade de factores, componentes e intervenientes, é comum os pais depararem-se com dificuldades em lidar com a agressividade dos seus filhos.


Quando um bebé nasce, ele traz na sua "mala de ferramentas" impulsos amorosos, mas também agressivos. A agressividade é fundamental para que a criança aprenda a defender-se e a impor-se no meio em que vive e se desenvolve, para afirmar-se e ensaiar-se enquanto pessoa. Nesta experiência que é o crescer, a criança não sabe controlar essa agressividade, ou seja, não consegue usar de modo adequado esta "ferramenta".

Geralmente, os comportamentos agressivos ocorrem quando a criança se sente frustrada ou quer comunicar que algo não está bem. Com muita frequência, a criança provoca um adulto para que ele possa intervir por ela e controle o seu impulso agressivo, já que ela é pequena e não tem condições de o fazer autonomamente. Nesses momentos, é como se o adulto emprestasse o seu auto-controlo à criança.

O comportamento agressivo infantil resulta, numa perspectiva desenvolvimental, na ausência de estratégias pessoais para organizar respostas melhor adaptadas à necessidade de conforto e segurança que a criança tem diante de situações ansiogénicas. Assim como os pais ajudam uma criança a andar, a falar... também a devem ensinar a controlar a sua agressividade e a aprender a hora e o modo correcto de a exteriorizar.

À medida que cresce, a criança aprende com os adultos que existem diferentes formas de se defender e obter aquilo que deseja. Quando os pais e/ou educadores ensinam que não é necessário tirar aos colegas os brinquedos, mas que é possível pedir para brincar com eles, ou chegar a um entendimento sobre como dividi-los, eles estão a ensinar à criança estratégias sociais que podem substituir condutas agressivas. Se este tipo de estratégia se mostrar eficaz, gradualmente a criança aprende a negociar e, se o ambiente no qual se insere valorizar essa atitude, gradualmente a conduta agressiva passa a ser menos frequente que as restantes estratégias para controlar o ambiente. É por isso que as lutas vão diminuindo de frequência com o seu desenvolvimento.


Para que as crianças apresentem uma forma legítima, natural e saudável de agressividade, é conveniente que os pais sejam tolerantes para com os filhos, aceitando-os e compreendendo-os de forma absoluta, mas justa. Dessa forma, estaremos a contribuir para que a independência e a criatividade sejam traços marcantes no desenvolvimento da criança, privilegiando simultaneamente na relação, a construção, o estabelecimento e a interiorização (compreensão e aceitação) de regras e limites, num exercício contínuo de respeito pelos outros e pela natureza.


A questão das regras e dos limites assume um papel educativo cada vez mais importante, visto verificar-se grande receio, por parte dos pais, em reprimirem, censurarem ou limitarem os seus filhos, fazendo da permissividade uma forma de lhes agradar e compensar possíveis ausências resultantes do ritmo de vida actual, expresso na falta de tempo para estarem e acompanharem os filhos. Porém, tal acarreta o enorme risco de gerar crianças que não conhecem os seus limites, e que não sabem lidar com sentimentos de frustração.

Ou, noutro sentido, crianças sujeitas a uma conduta de risco devido à inconsistência na forma de colocar limites. Tal pode deixar a criança confusa sobre o que pode ou não realizar, e torna difusa a compreensão do que é certo e do que é errado. Também não é raro encontrem-se pais que estimulam a conduta agressiva dos filhos, principalmente dos meninos, para a resolução de conflitos.

Apesar de não existirem receitas ou guiões para lidar com a agressividade duma criança, ficam aqui algumas ideias que podem ajudar no dia-a-dia. São elas:

- É necessário aceitar que, bem doseada, a agressividade é natural e até essencial para a criança poder brincar com os seus sentimentos agressivos, de forma a poder desenvolver a consciência da diferença entre a brincadeira e a verdadeira violência;

- Quando existe uma agressão por parte da criança, importa perguntar o motivo de tal gesto. Mesmo que a criança não responda, ajuda-a a pensar. Posteriormente, fazê-la pedir desculpa à agredida;

- É importante incentivar o diálogo e ser paciente. Muitas vezes, o tom de voz é determinante e diz mais do que as palavras. Procure ouvir a criança;

- O estabelecimento de limites claros é promotor do desenvolvimento da criança. Quando for necessário, dizer não, explicando o motivo da decisão. Não ter receio em impor a autoridade;


- Os adultos, enquanto modelos de referência, devem dar o exemplo e assim, não bater nas crianças;


- Manter a expectativa positiva face à criança e reforçar o comportamento adequado.

Normalmente, a agressividade não expressa "raiva", mas sim sentimentos como a insegurança, a mágoa, entre outros. É necessário ter em atenção o aumento da agressividade de uma criança, procurando compreender as causas por detrás desse comportamento.


"Disciplina é o segundo mais importante presente que os pais podem dar aos filhos. O amor vem em primeiro lugar, mas aprender a dominar sentimentos fortes como a raiva e a desilusão e comportar-se dentro de certos limites vem em segundo lugar."



T. Berry Brazelton