Desenvolvimento da criança dos 0 aos 10 anos


A importância da formação para o desenvolvimento da criança

Longe de procurar, com este texto, ensinar a educar, a relevância em abordar a temática do desenvolvimento prende-se com um duplo objetivo. O primeiro passa por potenciar um melhor conhecimento das necessidades da criança, que são distintas conforme o seu estádio de desenvolvimento e, em consequência, o segundo objetivo passa por, através dessa identificação das necessidades concretas respeitantes a cada faixa etária, poderemos adequar os cuidados prestados e o acompanhamento que melhor se adapte a elas, independentemente do nosso papel educativo.

Primeiros momentos de vida

Ao contrário do que durante muitos anos se acreditou, a importância dos primeiros tempos de vida é fundamental para o desenvolvimento dum ser humano, sendo aí que se estabelecem as bases para o seu percurso afectivo e cognitivo.

No entanto e, apesar de provavelmente esta ser a geração de pais mais informada acerca do desenvolvimento infantil, ainda se verificam com relativa frequência casos em que as necessidades da criança não são satisfeitas, sendo até muitas vezes desvalorizadas face a outras recorrentes.

Primeiro ano de vida

Após nove meses dentro do útero materno, o bebé estará provavelmente preparado para a sua aventura no mundo exterior. No entanto, mais do que qualquer outro animal, o seu desenvolvimento prolongar-se-á muito para além do nascimento, quer a nível motor, quer cognitivo, verificando-se uma completa dependência dos cuidados ambientais. Este período de dependência é mais acentuado nos mamíferos e nas aves e, em especial, nas espécies mais encefalizafas, ocorrendo a máxima duração na nossa espécie. No seu conjunto, o recém-nascido encontra-se mais afastado da idade adulta do que as crias de outras espécies. Poderemos dizer que, de certo modo, ao nascer, somos todos um pouco prematuros.

Se, por um lado, esta dependência constitui um grande inconveniente para a criança e progenitores, simultaneamente, verificam-se grandes benefícios. Com efeito, um período tão longo de dependência justifica-se pelo facto de ser uma criatura cuja principal especificidade é a capacidade de aprender e, invenção básica, a cultura, ou seja, os modos de estar e ser que cada geração transmite à seguinte. Desta forma, com tanto para aprender, as crianças possuem muito a ganhar com o facto de serem forçadas a permanecer junto daqueles que as ensinam.

Em última instância, podemos definir esta relação como possuindo ganhos para ambos os lados. Se, no caso do bebé, o seu objectivo está ligado à própria sobrevivência, no caso da mãe o mesmo objectivo verifica-se, mas, neste caso, a dos seus genes.

Estes primeiros tempos de vida são caracterizados por uma enorme dependência da mãe (ou figura de referência protectora), com o qual o recém-nascido mostra-se quase fundido, ainda sem grande capacidade de individualidade e autonomia. Nesses termos, o sentimento de aceitação incondicional pela mãe é um factor indispensável ao desenvolvimento da confiança em si e no meio que o envolve.

O tipo de vinculação que a criança estabelece possui uma importância fundamental na qualidade das ligações emocionais futuras da criança. Aquelas cuja ligação com a mãe decorreu de modo seguro estão naturalmente mais aptas a gostar de ir à escola, aprender, brincar, receber e visitar amigos e, um dia namorar, casar e terem a sua vida organizada, pois possuem uma confiança básica em si e no mundo.

O “equipamento” do recém-nascido

Ao nascer, os bebés possuem pouco controlo sobre o seu aparelho motor: agitam-se duma forma descoordenada e nem conseguem segurar a cabeça. Com 4 meses, é natural que já se sentem com apoio e tentem agarrar objectos que estejam à vista, tarefa essa que realizam com taxas reduzidas de sucesso.

As crianças aprendem principalmente através dos sentidos e são fortemente afectadas pelo ambiente imediato, daí a importância de fornecermos um meio sensorial rico e responsivo de modo a promover o desenvolvimento da inteligência das crianças.

Enquanto as capacidades motoras dos bebés são, inicialmente, muito limitadas, os sentidos apresentam, desde cedo, com maturidade considerável. Tal é possível comprovar através da verificação das mudanças nos ritmos de respiração, de mamar e de índices semelhantes de resposta à estimulação.

Possuem uma audição apurada, conseguindo descriminar entre tons de diferentes alturas e intensidades. Verifica-se uma tendência para responder a uma voz humana suave, especialmente feminina, preferencialmente a outros sons. Conseguem ver, apesar de um tanto “míopes” e incapazes de focar objectos a distâncias maiores de um metro e vinte centímetros. Conseguem discriminar facilmente brilho e cor e seguir um estímulo móvel com os olhos. São ainda sensíveis ao tacto, aos odores e ao paladar.

Desenvolvimento emocional/Social

Os instintos e reflexos inatos funcionam, em primeiro plano, à volta da ingestão de alimentos e à satisfação das necessidades básicas. Em consonância, existe uma enorme dependência da mãe, com a qual o recém-nascido mostra-se quase fundido, ainda sem grande capacidade de individualidade e autonomia.

O sentimento de aceitação incondicional por parte da mãe é um factor indispensável ao desenvolvimento da confiança em si e no mundo que a rodeia. Se, no início, a criança sente a mãe como parte de si, no culminar do primeiro ano ela aprende a vivenciá-la como objeto separado (com identidade e papel próprios). Desenvolve a capacidade de tolerar a frustração e, desta capacidade de espera, resulta o nascer duma representação interna de mãe.

Para que este desenvolvimento ocorra satisfatoriamente é importante que esta etapa seja preenchida de boas experiências emocionais, que permitam ao bebé um modelo de estabilidade e segurança, previsível e contínuo. “Ganham” os bebés que estabelecem uma boa ligação aos adultos mais próximos, e com eles estabelecem uma relação de confiança básica, marcada por um padrão rotineiro, sem períodos de separação traumáticos ou perda de figuras de referência. Perdem aqueles que, por oposição, possuírem vinculações inseguras, marcadas por instabilidade ou por múltiplos prestadores de cuidados.

Actividade Lúdica do bebé

O bebé precisa adaptar-se a um mundo novo mas, para tal, necessita conhecê-lo e compreendê-lo. Por natureza, as crianças são muito curiosas, possuindo um desejo natural de compreender tudo o que ocorre à sua volta, embora essa exploração seja limitada pelas suas limitações motoras, que restringem as possibilidades de exploração.

Como referido, desde o primeiro momento que a capacidade perceptiva e a inteligência do bebé actuam em consonância com o ambiente. Um bebé, deitado no berço, verifica que, ao mexer-se, o móbil também se mexe. A partir daí, repete o movimento, porém, agora de forma objectiva e consciente. Dado que o bebé, nesta etapa, se encontra maioritariamente deitado, a decoração da cama do bebé estimula a sua inteligência. Obviamente que, à medida que vai crescendo, tal estende-se a outros espaços.

Aos 4 meses, a criança consegue controlar de forma mais eficaz os seus movimentos, podendo, com razoável precisão, aproximar a mão dos objectos, desde que próximos. Então, o chocalho que ela sacode e produz som, o brinquedo que ela morde, a grade do berço, entre outros, cada objecto ganha vida e estimula-a para novas e ricas experiências.

Nestas idades é muito comum brincar com o abrir e fechar os olhos o que, para uma criança, representa perder ou possuir o mundo. Uma boa forma de estimulação que a criança pode realizar com o adulto é a tradicional brincadeira de esconder a cara com algo, e depois reaparecer.

Atirar objectos para o chão, actividade que tanto aborrece os adultos (mas que diverte imensamente as crianças), acaba por ser uma experiência que o bebé faz com o objecto e com o adulto, numa relação causa/efeito, em que o atirar o objecto causa o seu desaparecimento e respectivo barulho na queda, para não falar da reacção dos adultos.

No segundo semestre de vida, um bebé descobre uma nova e maravilhosa ferramenta de exploração do mundo, os dedos, e a sua capacidade para entrar em pequenas aberturas. Geralmente, os receptáculos preferidos para os seus dedos são os olhos, \ouvidos boca (sua e dos outros), entre outros. Nesta fase, a criança passa a explorar tudo o que seja possível meter um dedo (daí a necessidade de especial atenção às tomadas eléctricas).

O bebé sente prazer em explorar, encaixar, descobrir, construir… O desejo de aprender e conhecer é evidente em todos os bebés saudáveis. No início da vida, cada gesto e acto executado actua de forma permanente na construção da sua inteligência e desenvolvimento. A curiosidade faz parte da natureza humana, e caminha, lado a lado, com os interesses e necessidades de cada indivíduo, influenciando-o.

Aqui pede-se aos pais um equilíbrio salutar entre o permitir uma exploração saudável do seu mundo, e a imposição de limites protectores, sem coarctar as experiências e vivências que lhe permitam crescer, aprender e compreender tanto objectos, como pessoas ao seu redor.

Ideias para estimulação do bebé

1º. Mês - Converse ou cante para o bebé. O som da sua voz é reconfortante e transmite-lhe segurança.

Faça massagens à criança, estimule cada parte do corpo dela: pés, mãos, costas, rosto. Pode-se colocar música suave e revelar, através deste contacto físico, os seus sentimentos por ele pois, o toque das mãos transmite amor, carinho e segurança.

2º Mês - Apresente objectos grandes e coloridos para que ele possa brincar e tentar alcançá-los com as mãos.

Junto ao berço coloque um móbil colorido dentro do campo de visão do bebé.

3º Mês - Cante, faça gestos e expressões faciais. O bebé tentará imitar e responderá aos estímulos com sorrisos e ruídos.

Estimule o tacto do bebé com objectos de diferentes texturas. Ex.: passar no pé ou na mão dele uma pluma e observar as reacções; encostar na mão algo áspero e depois macio. Coloque-o sentado apoiado por almofadas.

4º Mês - Conte histórias curtas e imite o barulho dos animais com diferentes tons de voz. O bebé tentará imitar.


Mande-lhe brinquedos (bolas, dados) para ele tentar agarrar.

5º Mês - Deixe-o brincar com brinquedos macios, como mordedores, pois tudo que ele agarrar, vai levar à boca.

Coloque músicas de diferentes ritmos e dance com ele.

Espalhe brinquedos à sua volta deixe-o a brincar no chão.

6º Mês - Durante as refeições relate ao bebé o que ele está a comer. Mostre-lhe os alimentos.

Nesta fase, convide a criança para passear, e espere que ela lhe estenda os braços.
Imite o barulho dos animais e objectos, como gatos, telefone, estimulando-o a fazer o mesmo. Ao ar livre, deixe-o próximo das árvores, para que ele observe o balancear o e barulho das folhas.

7º Mês – Proporcione à criança a manipulação de brinquedos que façam barulho, de diferentes cores, formas e tamanhos. Coloque-os próximos do bebé e estimule-o de modo a ele ir buscá-los.


Ensine-o a dizer adeus. Em pouco tempo repetirá os gestos dos adultos.

8º Mês - Brinque às escondidas com uma toalha ou cortina. Permita que a criança mande objectos para o chão. Ele repetirá inúmeras vezes este movimento. Desta forma, está-se a fomentar a noção de causa e efeito.

Conte histórias, mostrando as imagens do livro.

9º Mês - Deixe perto do bebé brinquedos grandes e coloridos. Ensine-o a empilhá-los e a encaixá-los.


Quando junto do bebé, relate-lhe tudo o que faz. Ele começará a repetir sílabas. Converse sobre animais e imite o barulho dos mesmos.

10º Mês - Converse com o bebé e dê-lhe alternativas. Por exemplo: "Queres o urso ou a bola". Assim procurará o desejado.

Dance e cante com ele no colo, ele tentará imitar a coreografia e soltará os seus monossílabos.

Dê-lhe um telefone de brinquedo. Assim, está a incentivar a linguagem.

11º Mês - Participe nas brincadeiras da criança. Deixe à mão objectos que possam ser colocados e retirados de uma caixa ou balde.

Chame a atenção dele para objectos e animais conhecidos e também para as novidades.


Estimule-o a beber água em copos ou com o auxílio de palhinhas.

12º Mês - Cante e conte histórias. Disponibilize livros e revistas para manusear. Incentive-o a comer sozinho e a guardar brinquedos. Ele já entende ordens curtas, portanto explique-lhe tudo: o que estão a fazer, onde vão, etc... Brinque às escondidas ou à apanhada com a criança. Jogue à bola com ela.

Segundo / Terceiro Ano

Depois do primeiro ano, existem três marcos evolutivos do desenvolvimento da criança:


- O aparecimento da marcha;


- O início da linguagem (sobretudo a possibilidade de dizer "não");

- E o controlo dos esfíncteres, que representa a possibilidade de entre os 2 e os 3 anos prescindir-se do uso de fraldas.

Com a aprendizagem da marcha e da linguagem, a criança adquire, de forma progressiva, a sua independência motora, ficando muito mais apta a explorar o que a rodeia. Nesta fase, a capacidade de tolerar a distância e a ausência dos pais é maior, mas ainda não é substancial. Para que exista uma presença emocional dos pais na vida psíquica da criança, a sua presença é ainda muito necessária.

Por esta altura, a criança começa a andar, sobe e desce escadas, vai para cima dos móveis, etc. - O equilíbrio é inicialmente bastante instável, uma vez que os músculos das pernas ainda não estão bem fortalecidos. Contudo, a partir dos 16 meses, o bebé já é capaz de caminhar e de se manter de pé em segurança, com movimentos muito mais controlados. Verifica-se igualmente uma melhoria da motricidade fina devido à prática - capacidade de segurar um objecto, manipulá-lo, passá-lo de uma mão para a outra e largá-lo deliberadamente. Por volta dos 20 meses, será capaz de transportar objectos na mão enquanto caminha.


Após o segundo aniversário, e à medida que o seu equilíbrio e coordenação aumentam, a criança é capaz de andar ao pé-coxinho ou saltar de um pé para o outro quando está a correr ou a andar. É mais fácil manipular e utilizar objectos com as mãos, como um lápis de cor para desenhar ou uma colher para comer sozinha.



No segundo ano de vida, a linguagem começa igualmente a desenvolver-se e, a possibilidade de dizer "não", "eu" e "meu" surge como a expressão do eu próprio em oposição ao outro. Verifica-se uma grande mudança na consciência que a criança tem de si própria.

Após os 15 meses, verifica-se uma maior capacidade de compreensão das ordens impostas, inicialmente com o recurso de gestos, depois, sem os mesmos. Começa a conseguir acompanhar ordens simples, do género "Dá-me o brinquedo".

Uma vez que este é o período em que as crianças estão mais abertas à aprendizagem da linguagem, os adultos que falam muito com elas, que lhes lêem, ensinam canções e poemas infantis (por outras palavras, que usam a linguagem para comunicar com elas) têm um efeito marcante no seu desenvolvimento linguístico.

As inter-relações pessoais contribuem de modo fundamental para que as crianças aprendam a distinguir quais os comportamentos adequados e quais não são. À medida que o seu comportamento se torna cada vez mais complexo durante o segundo ano de vida, a criança vai aprendendo com as expressões faciais dos adultos, com o seu tom de voz, gestos e palavras, quais os tipos de comportamento que geram aprovação e quais geram reprovação. Os padrões geram-se através do dar e receber entre as crianças e os adultos que cuidam delas. Contudo, e a par do comportamento, são também muito importantes as emoções, os desejos e a auto-imagem em formação.

A partir dos 24 meses, surge a idade dos "Porquês?" À medida que se desenvolvem as suas competências linguísticas, a criança começa a exprimir-se de outras formas, que não apenas a exploração física - trata-se de juntar as competências físicas e de linguagem (por ex., quando faço isto, acontece aquilo), o que ajuda ao seu desenvolvimento cognitivo. É capaz de produzir regularmente frases de 3 e 4 palavras.

A partir dos 32 meses, é já capaz de conversar com um adulto usando frases curtas e de continuar a falar sobre um assunto por um breve período. Ocorre igualmente um desenvolvimento da consciência de si: a criança pode referir-se a si própria como "eu" e pode conseguir descrever-se por frases simples, como "tenho fome".



No seu processo de evolução, por volta dos dois anos/dois anos e meio, vai-se verificar a capacidade de criar imagens mentais (aquilo a que chamamos símbolos, ideias). Tal leva à compreensão dos conceitos. Progressivamente e, com a ajuda dos adultos, vai sendo capaz de compreender conceitos como dentro e fora, cima e baixo. Por volta dos 32 meses, começa a apreender o conceito de sequências numéricas simples e de diferentes categorias (o que mais tarde lhe permitirá o contar até 10; formar grupos de objectos - 10 animais de plástico podem ser 3 vacas, 5 porcos e 2 cavalos, etc.).


Por esta altura, as brincadeiras que implicam o fazer de conta ou a imaginação e que envolvem dramas humanos (por ex., bonecos a abraçar-se ou a lutar) ajudam a criança a aprender a relacionar uma imagem ou representação com um desejo, e depois usar essa imagem para pensar.

Surge então a capacidade de auto-observação. Esta capacidade é fundamental para o autocontrolo de actividades tão simples como pintar dentro ou fora dos riscos de um desenho, ou fazer corresponder imagens com números. A auto-observação também ajuda a estabelecer relações de empatia com os outros e a corresponder a expectativas.


Nesta fase, a criança irá investir muito na medição das suas posses, limites (de que algumas birras são exemplo), bem como em comportamentos omnipotentes, de risco ou de oposição. Embora seja um aspecto fundamental em todo o desenvolvimento, é uma altura em que se torna maior a importância das regras e limites estabelecidas às e com as crianças.

As birras são uma das formas mais comuns da criança chamar a atenção, e podem dever-se a mudanças ou a acontecimentos, ou ainda a uma resposta aprendida (costumam estar relacionadas com a frustração da criança e com a sua incapacidade de a comunicar de forma eficaz).


Por vezes, verifica-se uma tendência por parte dos adultos em facilitar, provavelmente devido a uma culpabilidade inconsciente que sentem em não passarem com os seus filhos o tempo que consideram ideal, sentindo que conter, frustrar, contrariar ou proibir pode prejudicar a criança. Muitas vezes, existe até um receio de perda do amor por parte da criança.

Mas, o que se verifica é que as crianças mais inseguras e com um maior sentimento de desprotecção são aquelas que, desde pequenas, não lhes foram passadas regras nem limites por uma entidade protectora.

Bases para a aprendizagem da disciplina

O cliché de que a seguir ao amor, o que de mais importante podemos dar a uma criança são os limites, faz todo o sentido. Toda a aprendizagem, mesmo a dos limites e da organização, começa com o carinho, a partir do qual as crianças aprendem a confiar, a sentir calor humano, intimidade, empatia e afeição pelos que a rodeiam. Os limites e a organização começam com o afeto, pois grande parte da tarefa de as ensinar a interiorizar limites baseiam no desejo dela em agradar ao "outro".


Um dos problemas associados às regras e limites fundamentalmente estabelecidos a partir do medo prende-se com a impossibilidade da figura de autoridade estar sempre junto da criança, o que faz com que, na sua ausência, a criança não sinta medo da punição. Por outro lado, o excesso de medo pode criar na criança ansiedade e inibição na maior parte das situações, chegando ao ponto de inibir formas saudáveis de expressão.


Quando a disciplina é estabelecida como uma aprendizagem e é reforçada, com muita empatia e carinho, as crianças sentem-se bem por seguirem as regras. A sensação de saber que se é "o menino dos olhos" de alguém é muito agradável. Quando essa criança sentir o olhar de desapontamento por um comportamento incorrecto, vai possuir uma sensação de perda porque não recebe o olhar carinhoso de quando se porta bem. Se nunca tivesse sentido tal, não haveria sensação de perda ou de frustração que a motivasse interiormente a modificar o comportamento.


É necessário ver que a disciplina é uma tarefa a longo prazo. O objectivo é ensinar a criança a controlar os seus próprios impulsos. Nesse sentido, existem pequenos “truques” que ajudam na interiorização dos limites nas crianças.

É reconhecido que ao salientarmos um traço, existe uma maior probabilidade de o repetir. Ao observarmos adultos em interacção com crianças, verifica-se a frequência com que são destacados aspectos negativos, repreensões, em comparação com os elogios aos bons comportamentos. Nós, adultos, não o realizamos por malícia, ou por desejar o mal para os nossos filhos. O que se verifica com frequência é que repetimos nas nossas crianças os modelos educativos que nos foram transmitidos, que vastas vezes não primavam pelo uso do elogio. No entanto, esses padrões educativos podem ser alterados, especialmente ao termos consciência das nossas acções e do impacto que possuem no desenvolvimento da criança. Cabe-nos a nós, adultos, realizarmos uma auto-reflexão das nossas interacções com as crianças, e analisar o feed-back que lhes transmitimos.

Ao termos o objectivo de aumentar o número de comportamentos positivos por parte duma criança, será através do elogio, do carinho no momento certo, que o atingimos. Nestas situações verifica-se a regra do que é salientado tende a repetir-se. Uma criança, ao efectuar um comportamento desejável, se obtiver a atenção positiva, uma recompensa (elogio, miminho, incentivo, não se trata de recompensa material), terá maior tendência a repetir esse comportamento no futuro. Se, no sentido inverso, atribuirmos atenção (mesmo que negativa) à criança quando tem comportamentos incorrectos, repreendendo-a, enquanto que não a estimulamos ao realizar uma atitude correcta, pois partimos do princípio que faz apenas o que é seu dever, estamos a estimular o comportamento indesejável. As crianças querem/necessitam de atenção e, se não a obtiverem através de comportamentos positivos, vão requere-la com comportamentos indesejáveis.

É claro que não se pede que se deixe de repreender as crianças quando existe essa necessidade, não é esse o propósito. Ao longo do seu desenvolvimento, é fundamental que a criança explore o seu mundo, e isso implica que os adultos necessitem colocar limites aos seus filhos. Essa curiosidade e interesse são saudáveis por parte das crianças, mas o papel dos adultos passa por promover a sua socialização, o que leva a por limitar a sua exploração quando necessário. Um dos papéis do educador passa por transmitir e ensinar o que a criança pode ou não realizar, incutindo-lhe regras e limites essenciais para o seu desenvolvimento e segurança. O que se pretende é que, além do referido, se estimule a criança pelos bons movimentos que realiza. O elogio, o incentivo, a confiança que lhes fornecemos são ferramentas que ela interioriza, e que lhe ajudam a sentir confiança em si para explorar o mundo, e para resolver os problemas de forma autónoma, confiando em si, nos seus recursos, e nas pessoas que lhe são significativas.

Ao longo da nossa convivência com as crianças, por vezes tendemos a esquecer que são crianças, e que possuem uma capacidade de entendimento distante da dos adultos. Também assim o é no modo como lidam com os elogios como com as críticas. Ao realizarmos uma crítica a um adulto, ele poderá ter a capacidade de analisar o que lhe foi comunicado, e ajustar o seu comportamento de modo a evitar essa punição. Contudo, este processo mental poderá ser muito complexo para uma criança e, até certas idades, impossível de realizar. Ou seja, para uma criança que recebeu uma crítica, poderá ser muito difícil alterar e ajustar o seu comportamento, pois ainda não possui a maturidade cognitiva que lhe permita compreender que, para evitar receber a repreensão, tem de mudar o comportamento "X" pelo "Y". No momento de repreender, pede-se paciência aos educadores, cujo papel não poderá passar apenas pela crítica, mas igualmente pelo ensinar à criança o modo correcto de agir, mostrando sempre a esperança de que na próxima vez a criança será bem sucedida.

Esta dificuldade cognitiva em ajustar o comportamento aquando de uma crítica, não se verifica no momento em que recebe um elogio por um bom comportamento. Nesse caso, trata-se de um processo cognitivo mais elementar, em que apenas realiza uma associação directa entre o comportamento realizado e a atenção positiva recebida. Por aí passa frequentemente o sucesso na mudança de comportamento das crianças, o salientar os aspectos positivos, de forma a tornarem-se mais frequentes, e a não atribuição de atenção às pequenas atitudes negativas, procurando que ocorram com menos frequência. Quando não é possível desvalorizar, e a repreensão torna-se necessária, importa explicar à criança o que fez de forma incorrecta, instruindo-a sobre o procedimento desejado e, claro, mostrar-lhe que sabemos que ela conseguirá ser bem sucedida no futuro.


É importante focar uma pequena nota no que se refere às repreensões e aos castigos. Quando o adulto se depara com a necessidade de repreender uma criança, o seu propósito não é vingar-se ou fazer mal à criança. O objectivo é sempre o de alterar o comportamento, que a criança tenha consciência de que o que realizou é incorrecto, e que esperamos no futuro que altere o comportamento específico que o levou à repreensão. Dessa forma, ao falarmos com a criança, devemos evitar expressões como o "És sempre assim", "Nunca fazes nada bem", entre outras. O mal de expressões como as referidas (entre outras) é que, além de não comunicarmos à criança qual o comportamento que consideramos incorrecto, não lhe transmitimos a esperança de o poder alterar, qualificamo-la de forma negativa, estamos a prejudicar a autoconfiança e a obstaculizar um sucesso futuro. Quanto ao comportamento em questão, é importante referir, de forma clara, o que desaprovamos, pois é o que queremos modificar e, de forma construtiva e optimista, comunicar-lhe o que esperamos dela, delegando-lhe a responsabilidade de confiarmos que, no futuro, conseguirá realizar o comportamento desejado. Expressões como as referidas anteriormente (sempre e nunca) funcionam mais como uma avaliação geral à criança, ao invés de focar o comportamento específico, aquele que realmente queremos alterar.

Uma última nota importante para a questão dos limites. Um modo fundamental de aprendizagem para as crianças é através da modelagem (imitação) das pessoas com quem privam, sendo o papel doa progenitores de grande importâncis: a moral desenvolve-se a partir da tentativa de querer ser como um adulto admirado, daí a importância de procurarmos ser os melhores modelos possível para as nossas crianças.

Socialização da criança

Ao nível da socialização, a criança aprecia a interacção com adultos que lhe sejam familiares, imitando e copiando os comportamentos que observa. No entanto, vai se verificando um aumento progressivo da autonomia: sente satisfação por estar num grupo de crianças, necessitando apenas de confirmar ocasionalmente a presença e disponibilidade do(s) adulto(s) de referência - esta necessidade aumenta em situações novas, surgindo uma maior dependência quando é necessária uma nova adaptação.

As suas interacções com as outras crianças são ainda limitadas: as suas brincadeiras decorrem sobretudo em paralelo e não em interacção com elas. A partir dos 20-24 meses, e à medida que começa a ter maior consciência de si própria, física e psicologicamente, começa a alargar os seus sentimentos sobre si aos outros - desenvolvimento da empatia (começa a ser capaz de pensar sobre o que os outros sentem).

Inicialmente, o leque de emoções é vasto, desde o puro prazer até à raiva frustrada. Embora a capacidade de exprimir livremente as emoções seja considerada saudável, a criança necessitará de aprender a lidar com as suas emoções e de saber que sentimentos são adequados, o que requer prática e ajuda dos adultos.


No decorrer do terceiro ano de vida, começa a verificar-se como tema comum de brincadeira a imitação e tentativa de participar nos comportamentos dos adultos: por ex., lavar a loiça, maquilhar-se, etc.


Controlo dos esfíncteres

Com cerca de dois anos de idade, inicia-se o processo de ensino do controlo dos músculos que permitem a possibilidade de contenção e expulsão das fezes e da urina (controlo dos esfíncteres). E, simultaneamente, a aprendizagem da limpeza do corpo. Travam-se as "lutas" do bacio. Do ponto de vista da criança, tal implica uma renúncia, um "favor" que se presta à mãe. Os pais desejam que a criança passe a utilizá-lo sempre que sente necessidade e esta vai aproveitar a possibilidade de controlo para os seus momentos de oposição e jogos de afirmação. É um momento importante do desenvolvimento e é de salientar que poderá provocar na criança muita ansiedade, sobretudo quando há excessiva rigidez na educação (chegando-se por vezes ao castigo quando a criança não controla). É desejável que este processo seja realizado com tranquilidade, aceitando o ritmo de cada uma.


É de evitar um exagero na necessidade de limpeza. Nalguns casos, a associação entre sexo e "porcaria" poderá mais tarde, no adulto, repercutir-se como uma não aceitação do seu próprio corpo, dos seus cheiros e líquidos, o que eventualmente, levará a manifestações negativas nas suas vivências afectivas e comportamentos mais íntimos.

Terceiro / Quarto Ano

Esta é uma fase marcada pelas repercussões psicológicas do reconhecimento da diferença anatómica entre sexos.

A criança pequena começa a identificar-se com o progenitor do mesmo sexo (o menino com o papel do pai, a menina com o modelo materno). Fazem parte da mesma época as brincadeiras em que se mostram os órgãos genitais (conduta aparentemente "exibicionista", brincadeiras de médicos, etc.). É a época das perguntas, das repetições com tonalidades prazerosas. O pensamento apresenta uma falta de separação nítida entre a fantasia e a realidade.

Nesta fase aumenta a curiosidade em explorar questões relacionadas com a vida dos adultos, como: de onde vêm os bebés, como foi o seu nascimento, etc. Cabe aos pais procurar satisfazer essa curiosidade, sem cometerem o erro de aprofundar à medida do desejo que a criança parece requerer, pois ela ainda não possui uma maturidade psicológica que permita lidar com essa informação.

Nesta etapa surge, como factor significativo, a necessidade de manter viva a diferença geracional entre os pais e a criança.


Entre os Cinco/Seis anos até aos 10

Neste período, a criança continua a precisar duma grande proximidade afectiva dos pais, com o carinho associado necessário. Porém, progressivamente aumenta o período de tempo que passa com outras crianças, bem como a importância dessas relações para a sua vida. Aumenta cada vez mais a importância de possibilitar à criança oportunidades de interagir com outras da sua idade na maioria dos dias da semana (Brazelton & Greenspan, 2002).

É igualmente neste período da vida da criança que se inicia um “período de calma” no desenvolvimento emocional e impulsivo. O pudor faz passar para segundo plano o interesse pelo que é instintivo, principalmente perante os adultos - o chamado período de latência sexual, que vai até a puberdade. A esfera de acção excede a família (jardim de infância, companheiros da mesma idade). A fantasia concentra-se nas fábulas (bem e mal); as brincadeiras sujeitam-se a regras. O princípio da realidade vai ganhando terreno ao princípio do prazer.


A escola ajusta-se muito bem e de muitas formas ao estádio de desenvolvimento das crianças, exigindo delas produção e ordem. A relação com as novas pessoas que representam a autoridade e a competência exercita, da parte da criança, a adaptação, a auto-afirmação, a capacidade de concentração, etc.

Esta entrada surge como uma mudança fundamental na vida da criança. Ela passará a estar sujeita a avaliações por parte do (s) seu (s) professor (es), colegas, bem como por si mesma, necessitando possuir um auto-controlo que lhe permita corresponder às novas exigências.

· Uma nota para a importância dos adultos neste processo. Para que a criança possua um bom desenvolvimento académico, é de extrema importância que receba bons modelos, bem como feed-backs positivos e adequados por parte dos adultos mais próximos (pais e professores). Aprender é descobrir o mundo à sua volta, e tal é sempre melhor quando devidamente acompanhado pelas pessoas que nos são importantes, e as principais bases da nossa auto-estima.

Desenvolvimento Cognitivo

Nestas idades, deve-se dar ênfase a competências e actividades como contar, classificar, construir e manipular, com o objectivo de estimular o desenvolvimento cognitivo da criança.


As actividades podem (e devem) ter cada vez mais regras. O valor destas é quase mais significativo do que a actividade em si. Enquanto a criança em idade pré-escolar obedece às regras sem compreender o porquê da sua existência, a partir dos 6/7 anos percebe-as pelo seu valor funcional.

Esta é uma fase também caracterizada pelo desenvolvimento motor da criança, que lhe permite adquirir um maior equilíbrio, coordenação e controlo do seu corpo. Actividades que potenciem e levem à exploração do corpo e seus limites potenciam a aquisição do esquema corporal. Este desenvolvimento é preponderante para todo o desenvolvimento académico, pois é a partir do nosso corpo que inicio a exploração para o resto do mundo e, áreas com o a percepção visual e temporal, desenvolvidas através de actividades tão lúdicas como brincar à apanhada e jogar às escondidas são essenciais para a aprendizagem académica (sendo este só um pequeno exemplo). Daí que, mesmo com a entrada para a escola, não se deve nunca desvalorizar a importância do brincar no desenvolvimento da criança.

Socialização

A identidade de sexo continua a estruturar-se, através dos modelos de identificação masculina e feminina fornecidos pelos adultos mais significativos. Só pode crescer bem como rapaz ou rapariga quem tem para quem olhar e com quem se identificar.

O grupo de pares torna-se progressivamente mais importante e, a pertença a um grupo é fundamental para a sua identidade. As crianças tendem a aproximar-se de outras com gostos ou características com que se identifiquem sendo, com frequência, neste período, que se nota a maior separação entre os grupos e brincadeiras de “meninos e meninas”.

Não obstante este passo, a importância e necessidade de proximidade afectiva dos pais é ainda de extrema importância. Passa também por eles contribuírem para uma progressiva transferência da regulação do comportamento da criança para a mesma, potenciando e incentivando a auto-regulação.

Educação
Não é possível dar receitas para uma educação "correcta". Os conselhos isolados, ao contrariarem o estilo educativo geral, confundem os pais e fazem com que a criança fique sem saber de que modo deve comportar-se. Mais fácil do que dar receitas de educação "normal" é dizer como não se deve ser a educação: despótica, dogmática, moralizadora, superexigente, com mimos excessivos, abandono ou contradições.

O que importa, pois, é a atitude global dos pais, sendo válida a antiga norma do amor e do exemplo. A união entre os pais, a capacidade para servir de modelos, aceitação incondicional da criança, sem mimá-la em excesso. Os pais devem ser firmes sem dureza, alegres e positivos, deixando a criança "um pouco solta", sem angústias, nem indiferença: estas são as melhores condições para a criança aprender a auto-afirmar-se, não se tornando egoísta e passiva.

A forma da educação deve ajustar-se à idade da criança. À criança em idade Pré-Escolar, deve-se, até certo ponto, "soltar", não lhe perturbando o desenvolvimento com excesso de cuidados educativos; por outro lado, só se aprendem umas tantas normas, nessa idade, mediante uma espécie de condicionamento, à base de prémio e castigo. A criança, em idade escolar, é mais acessível ao conselho e ao esclarecimento (dentro de certos limites).

Algumas palavras sobre os castigos aplicados à criança pequena: o próprio castigo deve ser caloroso (tanto no que diz respeito ao afecto parental como relativamente à recordação que a criança guarda); e não deverá deixar ressentimento nem aos pais, nem aos filhos.

SEMENTES PARA CRESCER

Práticas parentais de reforço à auto-estima da criança


A importância da discussão em torno do tema auto-estima torna-se extremamente relevante, no sentido em que o grau de investimento, por parte duma criança, em explorar e enfrentar os desafios desenvolvimentais, depende da confiança em si e nas suas capacidades.


Num momento em que o Bullying e o consumo de substâncias psicoativas são temas recorrentes, verifica-se que a criança/adolescente com uma boa auto-estima encontra-se mais preparada para se defender e fazer-se respeitar, não permitindo que os outros abusem de si ou a influenciem negativamente. Para dotarmos as nossas crianças dessas ferramentas, o papel dos pais e de outros adultos de referência assume um papel preponderante.


Auto-estima
No desenvolvimento da criança, na aquisição de competências e nas conquistas daí resultantes, importa indagar sobre a construção e desenvolvimento da auto-estima, bem como o papel dos adultos nesse processo.


A imagem que temos de nós, ou seja, o modo como nos percepcionamos (auto-conceito), é construída desde uma fase muito precoce da nossa vida, provavelmente desde a gravidez, e encontra-se, de modo indelével, ligada à relação com os pais e/ou outras figuras de referência da nossa vida.

Visto a capacidade da criança em realizar um julgamento eficaz de si e das suas capacidades ser reduzida, depende das pessoas que lhe são significativas, que funcionam como "espelhos", aos olhos de quem se percepciona. Deste modo, os pais são, geralmente, os principais "espelhos" da criança, e têm um papel crucial no modo como se avalia e confia nas suas capacidades.

E é com base nessa imagem devolvida pelos pais que a criança constrói a sua auto-imagem e realiza um julgamento sobre si, que pode ser mais ou menos positivo. A esse julgamento, ou a essa avaliação que realizamos sobre o nosso auto-conceito, denominamos de auto-estima.


Papel Parental

Importa então reflectir sobre o que lhes estamos a transmitir. Porque se, predominantemente, a criança receber “ecos” positivos, a sua auto-estima tenderá a ser alta. No sentido inverso, se recebe com maior frequência feedback negativo, tenderá a possuir uma imagem negativa de si própria.


Cabe então aos adultos a tarefa de valorizar o que de bom a criança realiza, as suas qualidades e, mesmo nas actividades em que possuí maiores dificuldades, transmitir-lhes a esperança de serem bem sucedidas.


O elogio enquanto arma positiva

O elogio serve como uma poderosa ferramenta ao serviço dos pais, no que se refere à auto-estima dos seus filhos. Atribuído quando tenta realizar algo (elogiar o esforço, não apenas os sucessos), faz com que se sinta importante, valorizada, e capaz de empreender novas tentativas e conquistas. Além de permitir que acredite que é capaz de realizar algo que o adulto valoriza e respeita, este sentimento de confiança de ser bem sucedida é interiorizado e preservado no futuro.


Assim, mesmo quando o sucesso não é alcançado, o elogio pela tentativa, associado à esperança que o adulto lhe transmite que da próxima vez poderá ser bem sucedida, permite-lhe acreditar em si e nas suas capacidades, o que a ajuda a lidar com as frustrações de forma mais eficaz.



O poder das palavras

Para além do elogio, com grande frequência os pais são levados a sinalizar comportamentos ou acções que não consideram os mais adequados. Por vezes desprovidas de grande reflexão, as palavras utilizadas assumem um valor fundamental na mensagem que queremos transmitir, e no que queremos que a criança percepcione.


Torna-se então perigoso recorrer aos típicos rótulos e etiquetas que por vezes atribuímos às crianças. Como anteriormente referido, elas procuram nos adultos significativos espelhos que lhes ajudem a moldar a sua imagem. Essa imagem convém ser positiva e, quando não o for, deve transmitir a possibilidade de mudança para melhor.


Os rótulos não transmitem essa possibilidade. Ao invés, contribuem para que se percepcione e comporte de acordo com os “títulos” que os adultos lhes devolvem. Se, desde uma fase precoce da sua vida, começa a identificar-se com designações como “burra”, “preguiçosa”, “pastelona”, entre outras, com maior probabilidade crescerá a acreditar que o é.


A nível educativo, verifica-se a necessidade de ajudar a criança a compreender os comportamentos que não são os desejados pelos adultos, e aí torna-se importante recorrer a um uso eficaz das palavras. Para tal, as verbalizações dos adultos devem incidir sobre os comportamentos incorrectos da criança (Ex. “Esqueceste-te de arrumar o quarto”). Uma correcta sinalização do comportamento indesejado, permite à criança interiorizá-lo e, ao adulto, demonstrar o comportamento desejado, bem como transmitir que acreditamos na possibilidade de mudança positiva no futuro.

O oposto verifica-se quando, ao invés de demonstrar o comportamento desejado, atribuímos traços de personalidade (Ex.: “és sempre um desarrumado” ao invés de “tens de arrumar o quarto”). Deste modo, ao invés de se contribuir para uma efectiva melhoria comportamental por parte da criança, estamos a fornecer uma avaliação da sua identidade, de carácter permanente.


Ideias Positivas:

É necessário a criança acreditar na possibilidade de sucesso, e para tal precisa ser bem sucedido na realização de tarefas. Para tal, os pais devem procurar transmitir essa possibilidade de sucesso. Importa assim atribuir-lhe pequenas tarefas, que sejam adequadas à sua faixa etária, para ter verdadeiras hipóteses de ser bem sucedida. Nesse sentido, damos-lhe oportunidades de desenvolver-se, sem incorrer no erro de protecção em excesso, nem de a pressionar além das suas limitações naturais.

- Todavia, não cabe ao adulto procurar evitar exaustivamente que a criança se depare com sentimentos de frustração. Mais do que tal, a sua tarefa passa pelo ensinar que não é possível ser sempre bem sucedido. Quando existe uma boa identificação parental, a criança cresce tendo os pais como modelos a seguir. Porém, pode ser difícil para uma criança acreditar que poderá ser um dia como aquele ser perfeito que o pai e/ou a mãe aparenta ser. É muito salutar que os adultos também admitam quando cometem erros, e que o façam junto da criança. Reconhece assim que os adultos não são perfeitos, tal como ela não o é. Deste modo, os adultos podem ajudar a criança a aprender que errar é natural, todos o fazem, não apenas ela, e que existe sempre a possibilidade de, na próxima vez, procurar melhorar.


- Quando possível, permita que a criança tome as suas próprias decisões. Pode-se, por exemplo, pedir que opine sobre questões como onde ir passear, que actividade realizar, entre outras. Tal faz com que se sinta importante, valorizada e respeitada.

- Ouvir a criança. Mesmo nos momentos em que está apressado/a, é importante parar para ouvir e valorizar o que a criança nos transmite. Por vezes não é possível dar atenção imediata às suas questões. Nesses momentos, é preferível explicar que será melhor falar sobre o assunto mais tarde. Quando possível, volte a abordar novamente a questão junto dela.


– Dar valor às questões colocadas pela criança. Elas fazem perguntas de enorme significado moral, resta-nos estar atentos e, em conjunto, procurar aprofundá-las - não com a postura de sabedores da verdade, mas ouvindo o seu ponto de vista, expondo os nossos, explorando e descobrindo em conjunto. É neste ouvir e partilhar de argumentos com outras crianças e adultos que ela experiencia desequilíbrios cognitivos, que a levam a colocar em causa os seus conceitos e conduzem a uma nova reorganização dos mesmos. Este conflito (cognitivo) é fundamental para a reestruturação do raciocínio e para o desenvolvimento mental.

- Permitir a livre expressão dos seus sentimentos, mesmo os negativos. Por vezes, desvalorizam-se sentimentos muito fortes da criança, com expressões como "não se chora", ou "isso não é nada". Se ela sente, é porque tem razões para tal. É importante validar esses sentimentos e permitir-lhe que os partilhe com os adultos.

- É frequente esquecermo-nos de que já fomos crianças, e de que a sua forma de entender e percepcionar o mundo é muito diferente da nossa. Procure empatizar com ela, e perceber como esta se sente em determinado momento. Deste modo, ser-lhe-á mais fácil entender o seu ponto de vista e, assim, lidar com ela.

- Tal como os adultos, a criança também aprecia (e merece) que respeitem os seus espaços e limites. Expressões como "com licença" e "obrigado" podem contribuir para que se sinta confiante e respeitada.

- Partilhar com os filhos os seus gostos e os seus valores.


- Enquanto modelo para as crianças, transmita e seja entusiasta, positivo e alegre.


- Por vezes, o cansaço fruto dum dia de trabalho pode favorecer momentos em que se "descarrega" na criança de forma descontextualizada e injusta. É necessário avaliar o nosso estado e, quando necessário, recorrer ao parceiro para que lide com determinadas situações, resguardando o adulto mais cansado (e a criança).


- Esta é uma verdade que deve ser aplicada para todas as crianças, mas que torna-se mais relevante quando se trata de irmãos: o recorrer às comparações para repreender ou fazer a criança ver qual o comportamento desejável não é uma boa estratégia pedagógica. Não é positivo para nenhuma delas, e há uma delas que fica
prejudicada com a situação. Em comportamentos negativos, o ideal será comparar com outros momentos positivos (Ex. “Não devias ter batido no teu irmão. Lembras-te no outro dia quando vieste contar aos pais que o mano te estava a chatear?”).


- Uma grande parte do dia da criança é vivenciado longe dos pais, na escola, no jardim-de-infância ou creche. No fim do dia, é relevante que os pais demonstrem interesse e curiosidade pelas actividades dos seus filhos. Com frequência a criança ou não responde ou é vaga, mas o que conta é o interesse demonstrado pelos pais, o que
a permite percepcionar-se como importante para eles.
Desafio: experimentar perguntar à criança pelas coisas boas do seu dia, o que mais gostou, o que valorizou. De seguida, expressar igualmente o que mais gostou no seu próprio dia.

- Diga à sua criança o que a faz única e especial. Todos nós o somos, mas poucas vezes alguém nos diz.


- Por fim, uma última referência para o elogio: elogie-a com frequência, mas quando e onde o merecer. Os elogios são uma óptima ferramenta para a construção da auto-estima, mas só quando atribuídos pelo mérito, e de forma coerente. Mais do que o resultado, reforce o esforço da criança para ser bem sucedida.

Termina-se com uma proposta: uma vez por dia (no mínimo), elogiar uma acção ou qualidade positiva da criança, com naturalidade e no momento em que ela realiza o comportamento alvo do elogio.

Participação na Revista CEI - Cadernos de Educação de Infância, Agosto de 2010


Participação na Revista Pais & Filhos, Maio de 2010

http://www.paisefilhos.pt/index.php/familia/pais-a-m-menu-familia-58/2737-tver-ou-nao-tver-nao-e-a-questao


Como explicar a crise às crianças

Especialistas garantem que aos três anos as crianças já devem saber porque não podem ter brinquedos novos.

A crise alterou a vida de muitas crianças, mas os pais não sabem como falar dela. Pediatras aconselham a não esconder o problema. E sugerem a melhor forma de explicar aos mais novos o drama dos problemas financeiros quando eles fizerem certas perguntas.

Pai e mãe, porque é que não posso comprar o brinquedo?

"É essencial integrar as crianças nas poupanças em tempo de crise. Ou seja, fazer com que elas se sintam parte da resolução." O conselho é do pediatra Gomes Pedro. Não esconder das crianças os tempos difíceis de crise e envolvê- -las nas poupanças familiares é também a opinião do psicólogo Bruno Pereira Gomes. "Assim, elas sentem que estão a ajudar, vão sentir-se melhor, caso contrário poderiam até pensar que os problemas económicos da família são culpa delas", explica o especialista ao DN.

A psicóloga Sílvia de Jesus Coutinho defende que "convém passar a mensagem às crianças de que nem sempre vão poder comprar tudo o que querem". Adiantando que assim os mais pequenos se adaptam melhor às mudanças de circunstâncias e percebem que os pais não são nem devem ser super-heróis.

O que quer dizer isso da crise, podem explicar-me?

Conversar com as crianças não é fácil, mas Bruno Gomes sugere que os pais fujam aos discursos elaborados. O especialista diz que o melhor é um discurso simples que não assuste as crianças.

Também Sílvia Coutinho avisa que quando os filhos perguntam o que é a crise tudo deve ser explicado "numa linguagem próxima do nível de entendimento da criança". Além disso, acrescenta, não se deve "explicar coisas a mais". Basta responder às perguntas dos filhos de forma simples.

"Não é preciso forçar nada. Há que estar atento às perguntas que os filhos fazem e ir esclarecendo as dúvidas calmamente" diz Bruno Gomes, que acha ser "impossível as crianças não saberem o que se passa com a quantidade de notícias que há". Atendendo às informações, "elas, neste momento, têm medo da crise", diz.

Mas eu não sou novo de mais para saber essas coisas?

De acordo com Gomes Pedro, quando as crianças entram para a escola, "é importante que vão adaptando os conhecimentos". Mas Sílvia Coutinho considera que aos três anos as crianças começam a pedir brinquedos e é preciso dizer-lhes que não podem ter tudo. Por isso, essa pode ser uma boa idade para lhes explicar de forma simples o que é a crise.

Nestas idades, a crise pode ter um lado positivo, diz Gomes Pedro: "É nestas alturas que as crianças podem construir valores morais e aprender a partilhar." Isto é, ao compreenderem as dificuldades por que passa a família, ou outras pessoas, aprendem também elas a fazer frente aos problemas. Gomes Pedro sublinha, porém, que aos três ou quatro anos os miúdos "envolvem-se naturalmente nas fantasias".

Então e aquelas histórias todas de finais felizes não existem?

Apesar de a crise não ser uma situação agradável, Bruno Gomes defende a necessidade de as crianças imaginarem que podem ser felizes, "que o bom pode vencer".

Da mesma forma, Sílvia Coutinho também aconselha os pais a continuarem a contar histórias felizes aos filhos, pois estas dão segurança. "As histórias com final feliz dão a ideia de que tudo vai correr bem no final e isso é bom", assegura.

A psicóloga entende mesmo que estas histórias podem ajudar a falar da crise. "Os pais podem dizer que agora não podem comprar tudo, mas que no futuro tudo vai resolver-se e vão poder comprar brinquedos", exemplifica.

Importante também é que as crianças entendam o mundo à sua volta. "Os pais nunca devem ocultar a verdade. Mas é sempre mais fácil ir pelo lado negativo. Temos de pensar no aspecto positivo, explicando o lado mau", recomenda Bruno Gomes, aconselhando mesmo os pais a lerem contos de fadas para si próprios.

Para Gomes Pedro, "a criança deve saber o que é a realidade, mas claro que deve ter o seu refúgio de fantasia."


Publicado no Diário de Notícias em 06/06/2010

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1586563

'Stress' faz disparar problemas de sono nas crianças e jovens

Número de casos que chegam aos pediatras está a aumentar. Um estudo alerta para as mudanças de comportamento e para a ansiedade que provoca nos mais novos

Luís, João e Matilde são irmãos e todos têm dificuldade em dormir. Uma situação cada vez mais frequente entre as crianças e jovens, alertam os especialistas. Na origem da falta de sono está o stress do dia-a-dia da maioria das famílias, que os mais novos também sentem.

Um estudo realizado nos Estados Unidos revela que as crianças dormem hoje menos uma hora do que há 30 anos. E que a falta de sono se reflecte na redução dos níveis de inteligência, num comportamento ansioso e até contribui para o aumento da obesidade.

"Há 15 anos não tinha tantos casos de crianças com problemas de sono", reconhece ao DN o director do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Gomes Pedro. "Actualmente, o stress nas famílias é maior", justifica o clínico. E a maior proximidade de pais e pediatras durante as consultas também ajuda a detectar mais cedo os problemas.

O tempo necessário para dormir varia de criança para criança, mas oito horas é o tempo de sono recomendável pelos médicos. 60% das crianças e jovens ouvidas pelos autores do estudo norte-americano confessaram sentirem-se sonolentos durante o dia, porque dormiam menos de sete horas por noite. O que tem consequências no seu aproveitamento escolar ou nos níveis de ansiedade durante o dia.

No caso de Luís, 20 anos, e João, de 17 anos, a falta de uma noite descansada não se repercutiu nas notas. Já Matilde, de cinco anos, deixou de ir ao infantário durante cerca de dois meses devido aos problemas de sono que a faziam acordar tarde e cansada.

"De um momento para o outro deixou de dormir. Só conseguia descansar um pouco se fosse para a minha cama e há muito que tinha perdido esse hábito", recordou ao DN a mãe, Maria José Salgueiro. Além da falta de sono, os pesadelos estragavam o pouco que conseguia dormir e, para agravar, começou a urinar com frequência.

As causas não são claras, mas quando em Novembro a família ficou doente, com suspeitas de gripe A, Matilde, sendo a mais nova, "recebeu muitos miminhos". No regresso à normalidade, a criança sentiu muito esta separação. "Começou a não querer ir para o infantário, achava que eu não gostava tanto dela, que não a queria comigo", contou a mãe. O stress de se separar da mãe terá estado na origem da falta de sono. A criança passou também a estar muito ansiosa durante o dia.

Já no caso de Luís foi a preocupação com o irmão que lhe roubou o descanso. Como filho mais velho sempre levou muito a sério o seu papel de proteger o irmão João, que é surdo profundo. "Preocupava-se com tudo. Qualquer problema faz com que durma mal. Sempre foi assim", afirmou a mãe.

João é uma situação "mais normal" entre os jovens que dormem mal. Gosta de estar bem preparado na escola e perde o sono principalmente nas alturas dos testes. Mas, tal como Luís, nunca recorreu a um médico. Afinal bastava um pouco de calma para controlar a ansiedade e conseguir dormir.

Com Matilde, Maria José Salgueiro optou por ir ao pediatra e o segredo para que a filha voltasse a dormir descansada na cama exigiu muita calma e paciência. Tanto Gomes Pedro como o psicólogo Bruno Pereira Gomes recomendam que o primeiro passo seja recorrer ao pediatra.

"Só em situações extremas é que há mesmo a necessidade de recorrer a um psicólogo. A solução para que uma criança normalize o seu sono passa pela existência de rituais, como uma hora concreta de ir para a cama", referiu ao DN Bruno Pereira Gomes.

Gomes Pedro salienta que as crianças absorvem todos os problemas familiares. E que para resolver a situação "há que reorganizar a desorganização". Por isso, é importante que os pediatras sugiram aos pais estratégias para garantir que os filhos tenham uma noite descansada (ver caixa), o que pode passar por uma simples mudança de hábitos.

A opinião é partilhada por Bruno Pereira Gomes. "Muitos pais têm problemas em se impor e as crianças vão testando os limites." Depois, há um ponto essencial: "Hoje em dia as crianças têm uma vida muito sedentária. As crianças precisam de tempo para extravasar a energia", conclui.


Publicado no Diário de Notícias em 08/02/2010

http://dn.sapo.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1489245&seccao=Sa%FAde

Crianças passam tempo de mais nas creches

Deco alerta que um terço fica mais de nove horas no jardim- -de-infância. Especialistas alertam para risco deste distanciamento

Ansiedade, stress e insegurança são alguns dos problemas que podem surgir nas crianças quando passam muito tempo na creche. E os dados de um estudo da Deco mostram que quase um terço está mais de nove horas nas creches. Os especialistas alertam para os riscos deste horário prolongado, mas lembram que mais importante é que o pouco tempo que os pais passam com os filhos seja um tempo de qualidade.

"A média que conheço é de dez a 12 horas por dia de estada na creche. Sete horas é o ideal", afirmou ao DN o psicólogo Bruno Pereira Gomes. O especialista considera que as creches são importantes para a socialização, mas também têm aspectos negativos: "As crianças estão muito tempo distantes dos pais. É crucial que quando estão com os filhos aproveitem ao máximo. Caso contrário, esta distância poderá resultar em crianças mais inseguras, instáveis emocionalmente, stressadas, ansiosas e menos respeitadoras."

Para Bruno Pereira Gomes "é difícil uma criança entender porque o pai não a vem buscar à creche há mesma hora que os outros". "Podem pensar que 'não gostam de mim'", referiu.

Já a pediatra Ana Serrão Neto diz que o melhor é mesmo não passar "tempo nenhum" na creche. "Até aos dois anos e meio/três é melhor ficar com familiares ou empregados de confiança", explicou ao DN. A clínica defende que a partir dessa idade e caso a criança não tenha contacto com outras, então, "por razões de socialização", a creche pode ser benéfica. "Não é desejável que sejam tantas horas, mas é a realidade", acrescentou.

Mesmo deixando os mais pequenos tantas horas no jardim-de- -infância, os pais gostavam que estes estabelecimentos fechassem as portas mais tarde e até que abrissem aos sábados. "Sei que é difícil ser pai e essa hipótese iria facilitar a vida, mas a solução não é essa. Há que pensar antes em ter melhores horários ou trabalhar mais perto de casa e reduzir o tempo gasto nos transportes públicos, por exemplo. Não podemos ter crianças a crescer sem pais", realça Bruno Pereira Gomes.

O estudo da Deco mostra também que 73% das crianças passam uma hora por dia a ver televisão nos jardins-de-infância. "Se o fazem é errado e antipedagógico. Um filme uma vez por semana é uma ideia aceitável", destacou o psicólogo.

Para Ana Serrão Neto este não é um problema, já que a televisão pode funcionar como "um estímulo visual" para os mais novos.


Publicado no Diário de Notícias em 26/02/2010


http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1505105



Já como e durmo sozinho:



Percursos na Autonomia da Criança

No léxico educativo, pode-se definir autonomia como o processo que permite à criança diminuir proporcionalmente a dependência do adulto e, em contrapartida, obter uma maior segurança em si própria, nas suas potencialidades, e na tomada de decisões por si mesma, através duma análise de diferentes aspectos ligados a essa escolha. Este será, no fundo, o objectivo de todos os intervenientes no processo educativo, o de permitir que a criança construa o seu conhecimento, e se torne responsável nos seus comportamentos e acções.

A referência ao termo no contexto específico do desenvolvimento assume diferentes significados, tendo em conta a idade da mesma, bem como outros factores, como são exemplo o género, a nacionalidade, a cultura, entre outros.

À medida que a criança adquire capacidades que lhe permitem um controlo motor e verbal mais eficaz, verifica-se, da sua parte, uma crescente disponibilidade para explorar, descobrir e comunicar com o mundo em seu redor, momento em que o termo autonomia ganha maior significado.


Desenvolvimento da autonomia
Piaget (em Desenvolvimento moral da criança) aborda o tema da autonomia moral da criança, dividindo-a em três fases:

Ü Primeiros 3 anos de vida: Após o nascer e, até o primeiro ano, ano e meio de vida, a criança vive numa fase caracterizada, entre diversos factores, por um grande egocentrismo, em que desconhece o conceito de certo e errado, de cumprir regras, e em que as suas principais conquistas verificam-se a nível relacional, especialmente nas relações de afecto junto das figuras de referência. As normas de conduta são impostas pelas necessidades básicas da criança. À medida que cresce, ela pode e começa a seguir regras que, são-no mais pelo hábito do que por uma consciência do certo e do errado.

Ü 3 aos 9 anos: Progressivamente, verifica-se o desenvolvimento do respeito pelas regras. A diferença entre o certo e o errado centra-se no cumprir ou não as normas impostas pelos adultos. Neste período, a capacidade da criança em “colocar-se no lugar do outro” é reduzida, o que a leva ao entendimento de que todas as outras seguem as mesmas regras. Este respeito encontra-se principalmente ligado a dois sentimentos, o amor e o medo. Esta respeita as regras pela necessidade de agradar ao adulto amado, e porque tem medo das consequências que derivam do seu não cumprimento.

Embora as regras sejam seguidas pelas crianças, estas ou não são capazes ou sentem dificuldades em compreender quais os critérios que levaram à sua elaboração.

- A partir dos 10 anos: A fase da autonomia, em que se procura uma legitimação das regras. O respeito pelas regras é realizado através de acordos mútuos. Elas agora são negociadas, acordadas, não podendo ser meramente impostas.


O papel dos adultos
O papel dos adultos, na construção da autonomia dos seus filhos, é fundamental e influencia, de modo marcante, o modo como a criança ultrapassa os diferentes desafios com que se depara à medida que cresce. Aos pais, cabe a função de promover um nível equilibrado de autonomia. Este equilíbrio centra-se entre dois pólos opostos:

Autonomia em excesso – em que os pais deixam a criança explorar por sua iniciativa, sem limites concretos e orientadores para com a sua acção. Além das dificuldades da criança em se socializar, em compreender o que pode ou não realizar, pode gerar-lhe sentimentos de ansiedade, insegurança, não se sentindo protegida e acompanhada pelos adultos de referência;

Autonomia em défice – Os pais ou adultos de referência adoptam comportamentos de sobreprotecção, em que a criança não é estimulada a experimentar, a explorar. Tal poderá contribuir para que se torne descrente das suas capacidades, e possua medo em arriscar e procurar novas experiências.

A pais e educadores, pede-se “uma tripla função”:
« Promover a autonomia, dando à criança a possibilidade de manter uma relação activa de exploração dos objectos como forma de construção do conhecimento;
« Manter disponibilidade para auxiliá-la nos momentos em que a tarefa se torna superior às suas capacidades actuais;
« Demonstrar, de modo coerente e firme, quais as regras e limites que se espera que cumpra.

Para uma criança, pode-se então definir o conceito de liberdade como o poder de escolha dentro dos limites que os adultos significativos lhe fornecem para explorar. Tal torna-se fundamental, na medida que tanto pais como educadores possuem como objectivo a preocupação em educar as crianças para a autonomia, estimulando-as a construírem os seus conhecimentos, de modo activo e participativo, bem como dotá-las de ferramentas para uma socialização eficaz.

A criança deve ser, tanto quanto possível, produtora do seu conhecimento, aprendendo a pensar. Deste modo, a pais e educadores cabe possibilitar-lhe a possibilidade de auto-reflectir, de manifestar os seus desejos, impulsos, de decidir, de resolver de forma autónoma os seus problemas, e sentir que, quando necessita, tem o apoio, a orientação e os limites dos adultos.

Deste modo: a criança autónoma não é aquela que faz tudo segundo os seus desejos e impulsos, sem atribuir importância ao seu redor. Mas antes, o sujeito autónomo é aquele que consegue ser e agir, segundo a sua vontade, mas de modo enquadrado e respeitante com as regras, ideias e valores do seu grupo social.


Ideias para fomentar a autonomia:
- Criar situações que promovam a autonomia, que obriguem a criança a escolher, a ponderar diferentes perspectivas, a experimentar o sucesso e o insucesso nas mesmas. Elas pedem orientação, e não uma autoridade máxima. Ao permitir a possibilidade de escolha e/ de actuação a uma criança, transmite-se que “confiamos em ti”, que sabemos que poderá ser bem sucedida e que, mesmo errando, poderá aprender e ultrapassar as dificuldades;

- Escutar. Ela possui um tempo próprio para organizar o seu pensamento, e convém que o adulto não antecipe as suas ideias, mas sim que lhe dê tempo para que as finalize;

- Promover um espaço aberto ao diálogo, à troca de ideias e ao entendimento;

- Permitir que a criança erre sem julgamentos, sem crítica;

- Evitar realizar as acções pela criança. A autonomia deve ser conquistada pela criança, e promovida pelo adulto;

- Adaptar as possibilidades de tomada de decisão de acordo com a idade e maturidade da criança;

- Mais do que os resultados finais, importa incentivar os pequenos passos na direcção correcta, pois a criança necessita de se sentir capaz, e só o sente quando obtém sucesso nas suas investidas.


Desafios desenvolvimentais das crianças (e dos pais): Alimentação e o Sono
Ao longo do processo de autonomização duma criança, existem desafios que colocam à prova pais e crianças, e que se tornam marcadores na sua relação. Estes são momentos privilegiados de relação, bem como de negociação, assentes num equilíbrio entre a vontade/necessidade da criança em se afirmar como um ser independente, e dos pais em educar a criança conforme os seus padrões sociais e educacionais. Não são, de longe, os únicos, mas a alimentação e o sono são comummente duas das tarefas desenvolvimetais que maiores desafios colocam a pais e filhos.

Não se procura, com este artigo fórmulas educativas. No entanto, existem alguns conceitos e conhecimentos que podem contribuir para ultrapassar essas dificuldades com menor tensão.

E, o primeiro passo passa pela aceitação de que, grande número das dificuldades que surgem, se verificam dado que a criança se encontra perante a aquisição duma nova competência. O seu desenvolvimento não é linear, não se regendo apenas pela aquisição de novas competências. Com grande frequência, a aquisição dessas leva a uma regressão noutras já adquiridas, o que pode suscitar nos pais sentimentos de frustração e, muitas vezes, a sensação de desespero.

No entanto, a aceitação de que os retrocessos verificados são um possível sinal de desenvolvimento dos seus filhos, pode levar a que os adultos se sintam menos ansiosos e frustrados e, consequentemente, que transmitam esses sentimentos mais positivos aos filhos, de incentivo perante os esforços dos filhos nessa procura de independência e autonomia.


Alimentação
Os momentos da alimentação são dos que maior angústia causam a pais e educadores, em relação aos quais se exige, o mais precocemente possível, altos níveis de autonomia por parte da criança. O alimentar-se sozinha está directamente ligado à autonomia da criança, e deve ser estimulado nesse sentido, desde os primeiros momentos.

No início de vida da criança, constata-se que a manifestação de vontade e prazer na alimentação, por parte do bebé, é algo natural. No entanto, ao longo do seu desenvolvimento, verificam-se períodos em que ela desinveste, o que vem criar problemas na tarefa alimentar. Apesar desta ser uma área, como tantas outras, em que deve existir um acompanhamento e um diálogo permanente com o pediatra da criança, existem algumas ideias a ter em conta, que poderão contribuir para prevenir e/ou atenuar as dificuldades.

Muitas das dificuldades ligadas à alimentação prendem-se com o facto das duas partes (criança / adultos) possuírem objectivos opostos. O desenvolvimento adquirido pela criança ao longo do fim do primeiro ano de vida, leva-a a querer com maior intensidade explorar essas capacidades. Mais do que alimentar-se, ela quer agarrar os talheres, a comida, negociar com os pais… Enfim, quer explorar todas as suas novas “ferramentas”. Este é um exemplo de como o investimento, por parte da criança, para desenvolver uma nova competência, leva a um retrocesso noutra, neste caso, na alimentação.

Não se pode esperar que a criança passe automaticamente do registo de ser alimentada para o de alimentar-se sozinha sem que, para isso erre. Para que tal suceda, de forma autónoma, tem primeiro que errar, fazer asneiras, sujar, entornar e deixar cair comida e talheres. Esta é uma etapa importantíssima para o objectivo final e, já por si, uma enorme conquista. Como tal, esta fase de experimentação deve ser acompanhada, compreendida e incentivada pelos adultos.

É importante que os pais valorizem, e incentivem, as novas capacidades dos seus filhos, como o agarrar, o procurar imitar os adultos, o comer sozinha e explorar diferentes texturas e consistências da comida... A criança precisa destas experiências, de sentir prazer na alimentação, como anteriormente ocorria. Após esta fase, ela encontrar-se-á preparada para aprender a ter uma alimentação de acordo com os padrões sociais em que se insere.

Quando, por insistência, a tarefa alimentar se torna desprovida de interesse para a criança, podemos estar a contribuir para que uma dificuldade potencialmente passageira, se adense e se fixe num padrão comportamental.

Também por volta desta fase de desenvolvimento, verifica-se uma mudança das suas necessidades alimentares. Tal carece duma correcta percepção por parte do adulto. Durante o primeiro ano de vida dum bebé, ele triplica de peso, o que leva a que o seu apetite seja muito grande. Entre o 1 e os 2 anos, verifica-se que o aumento de peso é substancialmente menor, apenas cerca de 20 %, existindo mesmo períodos em que se mantém. Tal é perfeitamente natural, e é desse modo que deve ser encarado. Por vezes, pais habituados às necessidades alimentares dum bebé, poderão sentir alguma ansiedade pela sua diminuição, e transmitir esse sentimento ao filho. Esse comportamento poderá remeter a maiores níveis de insistência, os quais poderão ser sentidos, por parte da criança, como agressivos, diminuindo o seu desejo natural de se alimentar.




Ideias-chave a considerar:
- Incentivar e estimular as tentativas de autonomia da criança. Neste caso específico, o comer sozinha. Aos poucos, e progressivamente, devemos ir incentivando as crianças a utilizar os talheres, como os “grandes fazem”;

- Deve-se evitar usar ameaças, recompensas e castigos ligados à alimentação. Até podem funcionar no momento mas, a criança pode sentir que possui uma “arma” que pode utilizar no futuro, o que só serve para prolongar as dificuldades. Funciona melhor atribuir liberdade à criança, permitir a exploração dos alimentos e promover que ela decida, dentro dos limites impostos pelos pais, como poderá resolver a situação;

- Ensinar a respeitar e valorizar o horário das refeições. Esse é o momento de alimentar-se, além dum momento importante de relação. Devemos procurar que seja tranquilo, apelar à liberdade e ao prazer de comer;

- Com frequência os pais preocupam-se com o facto dos seus filhos não se alimentarem convenientemente. O facto dela estar a crescer de acordo com os padrões para a sua idade, e a comunicação com o pediatra, ajudam os adultos a sentirem-se seguros quanto às suas capacidades em alimentar os filhos. Quando não se alimentam nos momentos adequados, importa resistir à tentação de o fazer posteriormente com alimentos do seu agrado;

- A criança, para ter fome, necessita de movimentar-se e ser activa. Quando passa muito tempo passiva, como é o exemplo de estar sentada a ver televisão, é natural que sinta menos fome. Ao invés, quando brinca, corre, joga à bola, gasta mais energias, e mais apetite terá;

- Como em tudo na actividade parental, ser um bom modelo e exemplo para os filhos. As crianças crescem desejando imitar e identificar-se com as suas figuras de referência, daí a importância de sermos bons modelos para seguirem.
Sono
Abordar a temática do sono é sempre um tema delicado, em especial porque não é uma questão consensual sendo, por consequência, sujeita a diferentes perspectivas e opiniões.

Existem vários factores que levam pais a querer dormir com os filhos, como são exemplo as seguintes situações:

- Fruto das necessidades laborais, verifica-se um elevado número de horas em que os pais estão privados dos seus filhos, resultando no desejo de passarem o maior tempo possível junto a eles. O dormir juntos proporciona maiores períodos de proximidade, além de poder oferecer mais segurança aos pais que, com frequência, sentem dificuldades em se afastar dos filhos;

- Pais divorciados poderão possuir maiores sentimentos de culpabilidade por se separarem dos seus filhos durante o dia e, assim, procurar compensar essa ausência durante a noite. Também pode ocorrer que estes adultos se sintam mais sozinhos e, assim, procurem uma maior proximidade com os filhos;

- O facto de crianças mais novas acordarem um número considerável de vezes durante a noite, leva a que seja facilitador atender às suas necessidades quando no mesmo espaço.

De modo geral, a nossa sociedade considera importante que a criança, mais cedo ou mais tarde, possua o seu espaço próprio, preservando a sua autonomia e intimidade, bem como a dos seus pais. Para os adultos, torna-se muitas vezes difícil fazer a escolha sobre o momento ideal para que o seu filho durma sozinho no seu quarto. Esta é uma decisão que deve ser, antes de mais, tomada em conjunto pelos pais, e planeada antecipadamente. A pesar nessa decisão deve contar a informação de que, quanto mais tarde ocorrer a mudança para o seu próprio quarto, mais difícil se tornará.

Brazelton, tendo em conta vários estudos que incidiram sobre a maturidade do sistema nervoso do bebé, defende que por volta dos 4/5 meses é a altura ideal para que os pais de debrucem sobre esta decisão.

O conseguir dormir sozinho é um dos objectivos a alcançar por parte duma criança, e é um passo importante no seu caminho para a autonomia. A importância desta conquista verifica-se facilmente no modo como crianças com 4/5 anos se valorizam dizendo “eu durmo sozinho”, em contradição com os que se remetem ao silêncio, com receio de serem descobertos pelos companheiros.

Para que uma criança “aprenda” a dormir sozinha, ela necessita ser capaz de fazer uso dos seus mecanismos para se reconfortar, e enfrentar uma noite afastada das suas figuras protectoras. Tal leva a que a criança aprenda padrões para o seu autoconforto quando acorda. Tal funciona como facilitador do processo de autonomia emocional, além de contribuir para o desenvolvimento do sentimento de segurança sem a presença física dos progenitores. Quanto mais a criança incluir os pais nos seus padrões de sono, mais dependente se tornará dos mesmos. Daí que seja natural que, ao contrário do esperado, quanto mais crescido for o filho, mais difícil tenderá a ser a mudança.

Esta importante conquista na autonomização, não é um processo linear e, com grande frequência, os pais deparam-se com retrocessos, o que os pode levar a questionar as crianças, bem como as suas próprias capacidades educativas. Como referido anteriormente, a aquisição de novas competências pode causar retrocessos noutras já adquiridas e, nesse aspecto, o sono é facilmente influenciável. Deste modo, mais uma vez, é com calma e consciência de que é “um passo em frente” que os pais devem encarar estas novas dificuldades. Apontam-se dois exemplos de avanços que podem causar retrocessos no sono:

Ao adquirir o desenvolvimento motor que lhe permite levantar-se, agarrar-se ao berço, é natural que a criança teste essas capacidades na hora de deitar. Quando esse desenvolvimento se cimentar, os seus padrões de sono tendem a normalizar-se. No sentido oposto, quando os adultos encaram com demasiada ansiedade esses retrocessos, ao invés de valorizarem o avanço alcançado, poderão inconscientemente contribuir para que as crianças se fixem neles.

Outro exemplo recorrente verifica-se por volta dos três anos. Neste período, verifica-se um avolumar dos medos manifestados pela criança, como são exemplo o medo do escuro, dos fantasmas e ladrões, que surgem com maior intensidade nesta idade, em especial no momento de deitar. Mais do que um retrocesso na capacidade da criança dormir sozinha, estes medos são sinais de uma maior maturidade em diversas áreas, como a da imaginação, da criatividade, do jogo simbólico, e duma maior consciência dos seus pensamentos agressivos, que se tornam mais ricos neste período.

Este desenvolvimento, importantíssimo no modo como a criança se socializa e incorpora os diferentes papéis sociais, resulta frequentemente em retrocessos na capacidade da criança sentir-se segura, no seu quarto, longe dos pais.

Mais uma vez, o primeiro passo para ultrapassar estes retrocessos passa pela sua aceitação enquanto integrantes e consequência dum processo evolutivo positivo da criança. Estas dificuldades são, no fundo, bons sinais e, quando os pais assim os aceitam, contribuem para uma diminuição da sua ansiedade e frustração, evitando que estas sejam passadas aos filhos.

Para finalizar, deixam-se algumas ideias úteis para ajudar a criança a dormir sozinha, e a vencer o medo do escuro:

- Procure transformar o momento de deitar numa ocasião de prazer e de relaxamento. Fale com a criança, conte-lhe histórias ao adormecer;

- A existência de rituais ajudam a criança a organizar-se e a orientar-se. Uma hora certa para deitar, e a criação dum ritual de preparação para este momento, como o beber leite, vestir o pijama ou lavar os dentes podem ser facilitadores. Importa que a criança interiorize que um determinado acto precede o momento de deitar, sem retorno ou negociação possível;

- Reconheça e legitime o medo da criança. Tente compreendê-lo e, em conjunto, explorar a causa dos seus medos, bem como formas de os ultrapassar;

- Mostre cumplicidade com os seus filhos, falando-lhes dos seus medos quando era criança, e até mesmo de alguns que sente em adulto (tendo em conta a adequação dos conteúdos à idade da criança);

- Deixar a porta aberta do quarto pode ser um bom auxílio;

- A existência duma luz de presença é um "amigo" maravilhoso. Se a idade da criança o permitir, ter junto a si uma lanterna que pode acender quando sentir medo. Este medo pode ajudar a criança a sentir que possui uma "arma" para se proteger;

- A possibilidade da criança ter na sua cama um boneco ou brinquedo que goste muito pode contribuir para que se sinta mais segura e confiante;

- O medo do escuro não se enfrenta no mundo do concreto, por isso torna-se desnecessário dizer-lhe que papões não existem. Este é um jogo que se joga ao nível da imaginação, e por isso os pais terão que participar a esse nível. Ajude a criança a procurar os monstros que julga escondidos no armário, assuste os fantasmas com uma lanterna, conte-lhe histórias em que os heróis venceram os monstros, use a imaginação e a fantasia...

“Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros
fizeram de mim”
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)





Bibliografia / Leituras recomendadas
Brazelton, T. Berry (1995), O Grande Livro da Criança, Editorial Presença, Lisboa.
Brazelton, T. Berry (2004), A criança e o sono, Editorial Presença, Lisboa.
Piaget, Jean, O Juízo moral na criança (1994), Editora Summus, São Paulo.
Sprinthall & Sprinthall, Psicologia Educacional (2000), Mc Graw-Hill, Lisboa.

Castigos: Rigor ou Afecto?


Castigar ou não Castigar?
Um dos aspectos que, a nível pedagógico, maior angústia causa a pais e educadores, são as dúvidas levantadas pelo acto de castigar. Castigar ou não? Qual o castigo mais apropriado? Esta ferramenta educativa, tão universal e utilizada ao longo da história nas mais diversas sociedades, continua a gerar diferentes opiniões, e a ser alvo de amplos debates.

"Asneiras de crescimento"
As crianças não nascem com a noção de certo e errado, e não sabem, à partida, qual o comportamento adequado para cada momento. Ao seu ritmo, estas vão procurar descobrir o meio à sua volta, explorar as suas capacidades à medida que as vão adquirindo, bem como testar as reacções dos outros para conhecer e desenvolver-se socialmente. As crianças "pedem" aos adultos que lhes forneçam as ferramentas para uma socialização bem sucedida, num equilíbrio nem sempre facilmente atingível entre a liberdade dada às nossas crianças, e os limites que se pretende que interiorizem.


A importância dos limites
A tema castigos é indissociável do de limites pois, à partida, os primeiros são utilizados como ferramenta para que a criança interiorize os segundos. E, actualmente, ser pai remete para um conflito cada vez mais frequente: não passar tempo suficiente com os filhos.
Após um dia de trabalho, longe dos filhos, é natural que os pais sintam não acompanhar o seu crescimento do modo desejado. Este sentimento, aliado ao cansaço e à necessidade de realizar múltiplas tarefas domésticas leva, por vezes, à adopção duma estratégia de compensação da sua ausência, através duma maior permissividade ou, por outro lado, a uma intolerância excessiva face aos comportamentos da criança.


No entanto, tal pode conduzir à educação de crianças com dificuldades em reconhecer limites, que não sabem lidar com a frustração, e torna difícil a compreensão e interiorização das noções de certo e errado. Os filhos precisam de limites para se sentirem seguros, para se socializarem, aprenderem a lidar com a agressividade, para crescer de forma saudável. E é, especialmente quando os pais têm menos tempo disponível, que as crianças mais os requerem, pois necessitam de receber essa segurança. Quanto menos a tiverem, mais veemente a vão reclamar, colocando os pais à prova, num processo de desgaste que pode ter consequências irreversíveis na relação parental.

Os limites
A imposição de limites ocorre sensivelmente no momento em que a criança adquire a capacidade motora para explorar o meio à sua volta. Por volta dos 8/9 meses, ela começará a gatinhar, e a adoptar o comportamento saudável de experimentar e conhecer os espaços em que se encontra. E é a partir deste preciso momento que os pais se confrontam com a necessidade de julgar o que é permitido a criança fazer, e o que não é. Este facto é ilustrado pelo exemplo clássico da criança que procura descobrir o que são as tomadas eléctricas, especialmente devido ao facto de comummente se situarem à altura do seu campo de visão.


Com o desenvolvimento da criança, entre os 18 meses e os 3, 3 ½ anos, no qual se verifica um aumento da linguagem e da destreza física, a necessidade de colocar limites firmes e inteligíveis para as crianças, passa a ser uma das imposições que se colocam a pais e educadores. Esta é uma fase em que a criança procura organizar-se e explorar com grande avidez o que a circunda, e "reclama" dos adultos significativos a orientação e a organização que lhe permitam aprender o que pode ou não realizar.

À medida que a criança cresce, mantém-se sempre a necessidade desta suscitar a orientação organizativa por parte dos pais, o que se vai alterando é a possibilidade crescente dos pais explicarem as regras impostas, devido à progressiva capacidade de entendimento dos filhos. Se, nos primeiros tempos de vida os limites podem ser colocados através de estratégias mais simples, como a distracção, o agarrar, a cara de mau, entre outras, com o desenvolvimento da criança, essa tarefa torna-se mais exigente e elaborada.

Os castigos ajudam?
Antes de abordar a questão dos castigos, torna-se fundamental salientar que, embora estes sejam importantes auxiliares no processo de interiorização de limites por parte das crianças, essa aprendizagem não pode passar apenas pela sua aplicação. Pelo contrário, o poder dos castigos deverá ser sempre reduzido, quando comparado com o do afecto, do exemplo e do diálogo, que deverão ser as principais ferramentas de socialização e educação.

Habitualmente, no processo educativo, as crianças procuram ser como os seus modelos de referência, cabendo-lhes a estes serem os melhores exemplos / modelos possíveis. A interiorização e a aprendizagem de regras e limites faz-se, fundamentalmente, pela imitação e procura de identificação com os modelos de referência que as crianças possuem, da qual os pais, seguidos dos elementos de família mais próximos, educadores, professores, entre outros, assumem amplo destaque.

Surge então a pergunta- os castigos ajudam ou não? E essa é uma das questões que maior angústia causa a pais e educadores, bem como qual o castigo mais apropriado para a criança.
Os castigos ajudam, e podem ser uma importante ferramenta de educação e socialização. Mas, para tal, terão de ser aplicados com moderação, de forma correcta e coerente. Existem modos de potenciar esta ferramenta, o que será tratado de seguida.

O propósito do castigo não é castigar
É difícil dizer qual o castigo certo, para dada situação. Além de pouco sensato, um "manual de instruções" apenas serviria para produzir mais incerteza e instabilidade na hora em que se pede aos pais segurança e firmeza.
Antes de mais, para que uma criança interiorize os limites, é necessário que se sinta afectivamente ligada à pessoa que a castiga. O castigo deve ser sempre dado com carinho, com amor, e transmitir a noção de que "eu estou a fazer isto por que gosto de ti, e preocupo-me contigo".

Importa ter em conta que, na hora de castigar, por mais aborrecido que se possa estar com a criança, o objectivo não pode ser o de "castigar", de lhe causar mal estar em retorno, mas sim ter o propósito de ajudar a criança a perceber que a sua acção foi incorrecta, e que compreenda o que é esperado dela.

Quebrar o ciclo
O objectivo imediato passa inequivocamente pelo término do comportamento incorrecto que a criança está a realizar. Tal poderá ser realizado de inúmeras formas, mas o olhar, a expressão facial (cara de mau), a imposição física (ex.: agarrar), o tom de voz, firme e seguro, sem gritar, poderão ser os melhores aliados. Nos primeiros anos, um castigo que resulta com sucesso é o isolamento, ou o acto de se sentar sem actividade na "cadeira do castigo" sem actividade. Esse castigo permite à criança acalmar, para de seguida ser possível conversar sobre o assunto.


Aspectos significativos dos castigos:
Existem pormenores relativos aos castigos que devem ser levados em consideração:
É essencial que o seu propósito seja o de sinalizar o comportamento incorrecto, pelo que convém não existir uma grande distância temporal do comportamento alvo, senão incorre-se no perigo da criança abstrair-se e esquecer-se do motivo do mesmo;

De seguida e sempre tendo em conta a idade da criança, torna-se fundamental que lhe seja explicado o que realizou de incorrecto e, explicitar de forma compreensiva, clara e curta, o que pretendemos dela. Se necessário e possível, exemplificando-o.

Deverá ser num sítio que os pais possam controlar, pois além das questões de segurança, é importante que se certifiquem que a criança, durante o tempo de castigo, não tem brinquedos à disposição ou outros factores de distracção, como por exemplo a televisão; do mesmo modo, o "mandar para o quarto" ou para outro espaço semelhante é um castigo que menores probabilidades terá de ser bem sucedido, pois o mais certo será a criança encontrar tantos factores de distracção nesses espaços que provavelmente rapidamente se esquecerá do comportamento que a levou ao castigo;

Qualquer castigo aplicado deve ter em conta a idade e o desenvolvimento da criança. Sempre que possível, o castigo deve contribuir para a reparação do comportamento alvo (ex.: se sujou algo, limpar). Também é importante não intimidar a criança com um castigo que se sabe que não será possível por em prática;

À medida que a criança se desenvolve a nível verbal, pode ter um papel activo na forma de reparar o seu comportamento incorrecto. Convém permitir-lhe que ela participe e opine sobre os castigos ou modos de reparar o comportamento incorrecto;

Procurar explorar com a criança o que a levou a realizar o acto. Esta compreensão, além de demonstrar disponibilidade afectiva por parte dos pais, pode contribuir para que a criança se sinta aceite e amada, mesmo quando realiza algo menos correcto;

No fim, e de extrema importância, é importante que a criança, após ter realizado o acordado no momento, possa ter a possibilidade de ser desculpada, o que lhe faculta o entendimento de que a reparação do mal efectuado é possível;

Na maioria das vezes, as suas "pequenas asneiras" funcionam apenas como forma dela chamar a atenção dos adultos. Sempre que possível, o melhor será ignorar esses pequenos comportamentos e, ao invés, quando a criança estiver a comportar-se do modo pretendido, dar-lhe a atenção que procura, reforçando e elogiando o bom comportamento. O que é notado e reforçado tende a repetir-se com maior frequência e, mais vale salientar e reforçar aspectos positivos da criança, do que negativos.

Atenção ao que se diz, e ao modo como se diz
As palavras contam, e muito. Daí que, no processo educativo, importa realizar um constante processo de auto-avaliação, no sentido de se procurar melhorar a função educativa. Nesse sentido, há que dar uma grande importância ao que se diz, ao que se transmite, e ao que se deseja que a criança interprete.

As palavras são importantes não só na hora de se castigar. Antes pelo contrário, são fundamentais no modo como a criança interioriza o que os adultos esperam nela. As expectativas da criança sobre as suas possibilidades de sucesso são fundamentais para o seu comportamento e, ela só se acreditará capaz de ser bem sucedida, se os pais lhe transmitirem. A capacidade das crianças realizarem uma correcta avaliação de si e dos seus comportamentos é reduzida, e necessitam dos pais, como espelhos. É importante que esses espelhos lhes transmitam a possibilidade de sucesso, de serem bem sucedidos. Veja-se:

Uma criança que, depois do jantar e antes de deitar, costuma brincar com os bonecos - Os pais, ao prepararem a criança para comer, poderão dizer duas frases, por exemplo: A primeira- "Quando acabares de comer toda a sopa, vais poder brincar com os bonecos". Esta verbalização transmite o acreditar, por parte do adulto significativo, das possibilidades de sucesso da criança na tarefa, e nos bons resultados consequentes. Segunda- "Se não comeres a sopa, não brincas com os bonecos". Esta verbalização, além de funcionar como uma ameaça, transmite a possibilidade e o acreditar de que a criança não será bem sucedida na tarefa (comer), mostrando a possibilidade de insucesso como a mais previsível. É uma pequena diferença de palavras, mas é uma grande diferença pedagógica.

A hora de repreender
Quando se repreende uma criança e ela é castigada, geralmente é por ela ter realizado uma acção contrária ao que se considera correcto (por exemplo uma criança que bateu no irmão mais novo). Nesse sentido, mais do que castigar, o que se deseja é mudar esse comportamento, e utiliza-se o castigo como um auxílio para esse objectivo.
No entanto, o castigo só por si não contribui para que esse comportamento desapareça. Aí entra o poder das palavras. A partir do momento em que a criança adquire o desenvolvimento suficiente para se expressar e compreender verbalmente, as palavras utilizadas pelos pais poderão funcionar como aliados excepcionais a nível educativo ou, se mal utilizadas, contribuir para aumentar a confusão e a insegurança da criança.

Voltando ao exemplo da criança que bateu no irmão mais novo, naturalmente, os pais mostrar-se-ão desapontados com o seu comportamento, e terão o desejo de o modificar. É necessário que, ao falar com a criança, as verbalizações incidam directamente sobre o acto incorrecto. Misturar assuntos e/ou alargar muito as explicações apenas serve para desviar dos propósitos. O comportamento incorrecto deverá ser bem sinalizado, de modo a que a criança tenha a perfeita consciência do comportamento indesejável. E, por mais fácil que esta tarefa possa parecer, existem algumas "ratoeiras" em por vezes se tropeça...
Convém evitar utilizar expressões como: "és sempre assim"; "tu nunca fazes nada bem"; "és feio, mau, mal comportado"; "não gosto mais de ti"; entre outras. O que se pretende é a mudança, substituir o comportamento incorrecto pelo correcto pelo que, expressões como as referidas, não transmitem essa possibilidade de mudança. Antes o inverso, transmitem às crianças o sentimento que os pais a vêem como aquela que actua incorrectamente, sem a possibilidade de mudar, prejudicando a auto-imagem da criança. Assim, no exemplo referido, evitar expressões como: "estás sempre a bater ao teu irmão", utilizando outras que sinalizem directamente o comportamento incorrecto "os pais estão zangados porque bateste no teu irmão" e, muito importante, explicar alternativas de como os pais esperam que a criança resolva o assunto no futuro: "da próxima vez, quando estiveres chateado com o teu irmão, podes vir dizer aos pais".

Castigos corporais
Outro tema directamente ligado aos castigos são os castigos corporais, geradores de imensa discussão, bem como de imensas opiniões. Quando o propósito passa por ajudar a criança a interiorizar regras, o castigo corporal revela-se pouco eficaz. Isto porque, quando ela realmente muda de comportamento, fá-lo por medo da figura de autoridade. E tal leva-a a aprender que, perante determinada figura de autoridade, não pode ter dado comportamento. O que até a pode levar a não o realizar nesse contexto específico, mas dificilmente o evitará noutros.

A criança aprende o que pode e não pode junto dos pais e, quando estes utilizam esta norma, elas aprendem que quando lhe batem é porque fez algo incorrecto. Quando muda de contexto (por exemplo, jardim de infância e escola), ela terá maiores dificuldades em respeitar adultos que não utilizam os mesmos padrões de disciplina.

E até que idade bater? Pode-se bater a uma criança mas, quando ela cresce, já não se pode? Ou continua-se a bater? Se o bater numa criança prejudica a sua auto-estima, podemos imaginar o quanto afecta a dum adolescente.
Anteriormente neste artigo foi referido que, mais do que os castigos, a criança aprende pelo exemplo. No exemplo referido (o filho que bate no irmão mais novo), os pais procurarão ensinar à criança que o acto é errado, e que ela não deveria bater no irmão. Para uma criança (e, porque não para um adulto), poderá ser difícil compreender que não pode bater nos outros, quando os próprios pais lhe batem.
Mais factores poderiam ser englobados nesta discussão mas, acima de tudo, o principal é que se pretende que as crianças nos respeitem, e não que temam os adultos.

Conclusões
Resumindo, o acto de castigar pode ser dividido em quatro momentos / objectivos:

Interromper o comportamento incorrecto, quando possível, e sinalizar de modo a que a criança compreenda sem dúvidas o que originou a reacção do adulto. Para que a criança consiga realizar uma correcta associação entre o comportamento incorrecto e a correspondente consequência, é necessária uma rápida reacção dos pais. Acções como "no fim do dia falamos" ou "quando o pai chegar ele fala contigo" são menos eficazes;
Após adquirir consciência do comportamento reprovado pelos pais, a criança deverá conseguir compreender qual o comportamento desejado. É importante que os pais, ao explicarem o procedimento, transmitam à criança que sentem que ela será bem sucedida no futuro. Se a criança não acreditar em si, e na possibilidade de ser bem sucedida no futuro, provavelmente voltará fracassar;
Desculpar. Nenhuma criança faz alguma acção que não possa ser perdoada. A criança necessita compreender que, apesar dos erros, também os poderá resolver e ultrapassar, e voltar a obter a confiança dos pais. Só assim poderá voltar a tentar ser bem sucedida em novos desafios. Aqui os pais poderão também dar o exemplo, assumindo que também já fizeram "asneiras", tal como as crianças, e que conseguiram aprender com elas e melhorar, tal como os filhos conseguirão;
Importantíssimo, reforçar quando a criança tem o comportamento adequado! Um sorriso, um elogio no momento certo, são as melhores armas que se podem utilizar.
Apesar da importância dos castigos, importa realçar novamente que a nossa principal ferramenta educativa é a relação de amor estabelecida com a criança, esse é o principal argumento que possuímos. O principal modo duma criança aprender e respeitar limites é crescer num ambiente em que se sinta amada, e em que aprenda a amar em retribuição. A criança deseja, e quer crescer, para ser "grande" como os seus modelos de referência (geralmente os pais), e será através do seu exemplo que melhor poderão moldar o seu comportamento, e influenciar positivamente a sua socialização.
Ressalva-se que todos os pais sentem dificuldades na educação dos seus filhos. É natural cometer erros, e aprender com eles, tal faz parte da tarefa educativa. Tal como os pais mudam, as crianças também, conseguindo alterar os comportamentos. Não só a nível da disciplina, mas como em vários outros aspectos educativos, a aprendizagem dos limites é uma tarefa a longo prazo, que exige determinação, coerência, firmeza e, fundamentalmente, muita paciência e amor.